Ampliação polêmica do CAFF em Porto Alegre entra no radar da arquitetura gaúcha
- Redação Portal Escala Humana

- 13 de mai.
- 4 min de leitura
Em uma das áreas mais estratégicas da capital gaúcha, no bairro Praia de Belas, está localizado o edifício do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF). Sua arquitetura foi concebida num momento em que a cidade passava por um processo de expansão em direção à orla do Guaíba. A nova paisagem e infraestrutura surgiam sobre aterros com a ideia de unir, num único complexo, secretarias e órgãos estaduais.

Hoje, o conjunto abriga — além das secretarias onde trabalham cerca de 4 mil servidores — auditórios, salas de reunião, estacionamentos, áreas de protocolo e equipamentos culturais, como a Casa da OSPA. Esse modelo de design é inspirado nos princípios do funcionalismo e da racionalização típicos do modernismo e, segundo especialistas, teria como gênese (matriz e imaginário) as obras do saudoso Oscar Niemeyer.

A novidade é que este edifício “megarrampa”, símbolo da arquitetura gaúcha dos anos 1970, com 22 andares e 89 metros de altura, está prestes a ganhar mais 9 pavimentos, prédios vizinhos novos e um retrofit bilionário via Parceria Público-Privada (PPP). O Portal Escala Humana te conta mais no artigo a seguir. Acompanhe!
A história do Centro Administrativo Fernando Ferrari
Ocupando uma área de 128 mil m², o Centro Administrativo Fernando Ferrari é uma obra emblemática para Porto Alegre — pode-se dizer que, de certo modo, funciona como um dispositivo organizador do território. Sua história começou em 1962, quando foi sancionado o plano de implantação. Mas só em 1971 (pelo decreto nº 21.190) é que o projeto arquitetônico ganhou forma com a equipe composta por Charles René Hugaud, Ivanio Fontoura, Leopoldo Costanzo, Cairo Albuquerque Silva e Luis Carlos Macchi.
Optou-se por seguir uma linguagem formal, curvas expressivas, volumetria escultórica e integração interior-exterior.

A saber, inicialmente, o prédio era para ter 31 andares e deveria ganhar ainda mais destaque no skyline da cidade. Mesmo assim, isso não impediu o CAFF de se tornar um símbolo urbano, como um “condomínio funcional” dos sonhos burocráticos. E, em 1989, ele foi rebatizado em homenagem ao economista Fernando Ferrari.

Fato curioso: em 2025, esse cartão-postal do estado viralizou nas redes sociais quando o skatista Sandro Dias realizou uma descida na lateral do edifício, explorando as inclinações e superfícies contínuas da geometria. A performance ajudou a recolocar em evidência a relevância desse ícone arquitetônico.
O projeto de ampliação do CAFF de Porto Alegre
Porto Alegre discute, neste momento, mudanças drásticas em seu Plano Diretor, visando principalmente à criação de um novo tecido urbano. Existe um desejo, motivado especialmente pela especulação imobiliária, de estimular o crescimento vertical da cidade. Inclusive, o governo estadual vem propondo para as próximas décadas uma ampla requalificação da capital por meio de iniciativas de parceria público-privada.

Especialmente para o CAFF, o plano é concluir até 2032 um retrofit completo do edifício com a adição dos novos pavimentos. O projeto traz diretrizes para modernização de sistemas e infraestrutura, além da criação de novas edificações no entorno, mais vagas de estacionamento e estações de trabalho, novas áreas comerciais, de coworking e espaços de convivência. E ao olhar o entorno, o observador deve ver um “quarteirão aberto”, sem barreiras físicas e com mais integração do espaço público à orla do Guaíba.

Entre resgate e ruptura
As ideias para o retrofit do Centro Administrativo Fernando Ferrari foram apresentadas em audiência pública em 27 de abril de 2026, na própria sede. Desde então, muitos especialistas passaram a questionar as obras. Alguns acreditam nessa aposta de qualificação do ambiente de trabalho, eficiência e inovação sustentável, agilidade e preservação patrimonial. Mas há quem tema que, ao se tentar resgatar o projeto original dos anos 1970, seja diluída a essência modernista do CAFF para sempre.
Bem, de fato, é inegável a relevância da presença do CAFF na paisagem urbana de Porto Alegre. Hoje, a adição de novos pavimentos pode ser até interpretada como uma tentativa de completar a intenção inicial dos arquitetos. Mas será que justamente elevar o ícone pode descaracterizar sua silhueta única? As novas edificações ao redor podem fragmentar a unidade modernista do conjunto, substituindo a pureza funcional original por uma lógica híbrida?
Enfim, é uma aposta muito arriscada que Porto Alegre faz; e certamente qualquer decisão arquitetônica tomada agora, mesmo que seja para a simples melhora do desempenho energético, deve impactar diretamente na percepção estética e simbólica deste edifício. Ainda assim, vamos torcer para que esse seja um case de sucesso, um laboratório vivo para o pensamento contemporâneo sobre cidade, patrimônio e inovação.
Que o Centro Administrativo Fernando Ferrari em Porto Alegre permaneça sendo uma referência para quem pensa arquitetura em escala urbana.
Fontes:
Correio do Povo, Portal CAFF, GZH, G1, Terra.
Imagem de capa:
Centro Administrativo Fernando Ferrari - Imagem de Anselmo Cunha/PMPA em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Centro_Administrativo_Fernando_Ferrari_41706.jpg
Material complementar:






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