O fim da identidade? Porto Alegre discute publicidade e fachadismo em áreas tombadas
- Redação Portal Escala Humana

- 3 de mai.
- 4 min de leitura
Quem caminha pelas ruas de Porto Alegre — sobretudo arquitetos, com seu olhar treinado de projetista —, consegue perceber facilmente as camadas de histórias se sobrepondo, do ecletismo até o modernismo. Toda essa mescla faz parte da identidade visual da cidade e a população sempre teve orgulho disso. Claro que o patrimônio construído local foi severamente castigado pelo tempo e até por enchentes. Agora, dois projetos envolvendo fachadismo e publicidade colocam em risco a memória urbana porto-alegrense.
As mudanças propostas para Porto Alegre
A paisagem urbana de Porto Alegre pode, em breve, passar pelas transformações mais radicais e controversas das últimas décadas. Como já mencionamos aqui, no Portal Escala Humana, a cidade está, neste momento, discutindo mudanças no seu Plano Diretor. Justamente aproveitando o gancho, várias outras propostas relacionadas à arquitetura e ao urbanismo estão sendo apresentadas na Câmara Municipal — a grande maioria colocando em prioridade interesses econômicos de grandes investidores.

Os temas abordados neste artigo são especialmente sensíveis para especialistas em arte e patrimônio. Eles mexem com nossa compreensão sobre desenvolvimento urbano, preservação e liberdade de comunicação.
Instalação de painéis publicitários
Recentemente, uma vereadora de Porto Alegre apresentou a proposta de alteração do Regulamento de Mídia Externa e Paisagem Urbana. O texto cita a ampliação das aprovações de instalação de painéis publicitários em edifícios localizados em áreas estratégicas. A justificativa é que a cidade consiga acompanhar a dinamização econômica do mercado.

O projeto publicitário precisaria ser assinado por um profissional habilitado, acompanhado de ART. A instalação de painéis seria aceita apenas em empenas cegas. Em tese, não haveria alteração das linhas arquitetônicas das obras ou ofuscamento da percepção visual do patrimônio. Mas será que é possível implantar esse tipo de intervenção sem gerar qualquer conflito com bens tombados? Não está claro quais critérios orientariam a regulamentação dessas intervenções.
Vale ressaltar que a instalação de qualquer painel publicitário dependeria, antes, de laudo técnico e da aprovação da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural. Porém, se o órgão não se manifestar em até 30 dias, o serviço pode prosseguir sem penalizações para o anunciante.
Agora, imagine Porto Alegre repleta de publicidade para todos os lados, com painéis de LED de alta luminosidade ofuscando nossos olhos. Modernidade e valorização urbana ou poluição visual mesmo? O que acha?

Fachadismo de imóveis inventariados
Também neste mesmo período, um outro vereador apresentou uma emenda ao Plano Diretor de Porto Alegre. Essa proposta pode ameaçar ainda mais a integridade estrutural e histórica da capital gaúcha. O texto estimula o retrofit de imóveis inventariados, permitindo que se mantenha apenas a fachada principal preservada, enquanto o restante da edificação poderia ser demolido, dando lugar a “volumes mais contemporâneos”. Na arquitetura, essa técnica se chama fachadismo.
Parte do argumento se baseia na ideia de que Porto Alegre deveria acompanhar a tendência de outras cidades brasileiras: crescimento por adensamento vertical. Ou seja, um desenvolvimento que aposta na construção de espigões com volumes híbridos e até desproporcionais, tendo como fachada primária a “casca” de antigos casarões dos séculos XIX ou XX.

Infelizmente, essa prática, assim como apontam alguns especialistas, pode ser interpretada como inconstitucional por ferir a lei de tombamento, que veta a descaracterização do bem. Lembrando que a arquitetura de um imóvel histórico não se limita à sua pele externa. Ela reside na sua tipologia, no seu sistema construtivo, na espacialidade interna, nos seus acabamentos e outros detalhes que contam a história de um modo de vida.
O risco da descaracterização da identidade visual
A paisagem urbana é como um ativo cultural. É difícil aceitar que antigas construções de Porto Alegre possam servir de suporte publicitário ou que, em última instância, sejam fragmentadas a ponto de restarem apenas como fachada.
A introdução de publicidade em áreas sensíveis pode quebrar a harmonia da cidade, substituindo significados por visibilidade comercial. É provável que a leitura da paisagem fique comprometida, que o conjunto arquitetônico perca valor simbólico e a capacidade de contar histórias. Será que isso é negociável?
Fachadismo e publicidade são uma combinação preocupante e o efeito deve vir em cascata. Para arquitetos, esse pode ser o prenúncio de uma perda gradual do controle da qualidade da paisagem urbana brasileira. Porto Alegre está se encaminhando para se tornar mais uma cidade genérica, onde o patrimônio sobrevive apenas como pano de fundo para o consumo, resumido a um fetiche estético desprovido de contexto social e técnico.

Entre o progresso e a memória
O plano para o desenvolvimento futuro de Porto Alegre parece caminhar na contramão de uma cidade humana e resiliente. Praticamente não se discute sobre soluções sustentáveis, corredores verdes e proteção contra enchentes. O foco parece estar na verticalização e exploração comercial agressiva. Vale a reflexão!
Como intervir sem destruir? Modernizar não tem nada a ver com negligenciar a base sólida sobre a qual a cidade se construiu. O retrofit, de fato, é um método excelente de arquitetura, mas que deve ser usado com respeito à integridade do objeto. Ainda que as propostas em discussão para Porto Alegre apresentem méritos, é legítimo questionar se constituem a melhor resposta para a preservação urbana.
Cabe à sociedade civil e aos conselhos técnicos manifestar suas preocupações junto ao poder público e contribuir com alternativas consistentes. É no debate qualificado e respeitoso que se constroem soluções mais equilibradas.
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Imagem meramente ilustrativa gerada em IA de Google Gemini
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