A rodoviária de Porto Alegre vai renascer ou perder sua alma modernista?
- Redação Portal Escala Humana

- 16 de abr.
- 4 min de leitura
A rodoviária de Porto Alegre é um dos equipamentos urbanos mais simbólicos da arquitetura do Rio Grande do Sul. Projeto do DAER, a estação foi inaugurada em 1970 e, desde então, tornou-se símbolo de modernismo e eficiência. Mas a obra sofreu com o tempo. Em 2024, foi fortemente atingida pela enchente. E agora — inclusive pensando numa possível expansão urbana da cidade —, o prédio começa a passar por uma importante reforma estimada em cerca de R$19,6 milhões e prazo de 13 meses.
Um terminal que mudou a lógica da viagem
Até o fim da década de 1930, o transporte rodoviário de Porto Alegre era difuso e pouco eficiente. Os passageiros precisavam avisar o transportador com antecedência sobre sua viagem e, depois, eram buscados em suas residências. Esse deslocamento inicial gerava muita confusão e perda de tempo. Para consolidar as rotas intermunicipais e interestaduais, organizando fluxos e dando escala urbana ao transporte por ônibus na cidade, foi criada a primeira rodoviária.
A estação passou por diferentes endereços (como as praças do Coliseu, Oswaldo Cruz e Rui Barbosa) até chegar ao local atual, escolhido considerando um modelo de articulação mais robusto para a rede regional. O prédio erguido foi considerado, na época da inauguração, o maior e mais moderno da América do Sul, tanto pelo desenho arquitetônico quanto pela funcionalidade.


Arquitetonicamente, vale destacar seus grandes vãos, organização clara, setorização eficiente e circulação contínua. Essa convergência entre forma e desempenho era rara.
Infelizmente, a nova rodoviária substituiu a antiga Estação Ferroviária Castelinho, de 1874. Essa sobreposição de modais demonstra uma inflexão no pensamento urbano que Porto Alegre já demonstrava nos anos 1970. Ou seja, a cidade já começava a privilegiar a flexibilidade e a capilaridade do transporte sobre pneus.
O desgaste do tempo e o impacto da negligência
Atualmente, a rodoviária de Porto Alegre é um dos principais pontos de conexão do Rio Grande do Sul. Por ela passam cerca de 15 mil pessoas por dia, número que dá a dimensão da sua relevância para trabalhadores, estudantes, turistas e passageiros que dependem do ônibus como principal meio de integração entre capital, interior, outros estados e até destinos internacionais.
Quando analisamos o traçado urbano da capital gaúcha, entendemos como esta estação ajuda a desenhar a experiência de chegada e partida da cidade, sendo um equipamento que participa ativamente da imagem urbana do centro.
Apesar de tamanha importância, essa rodoviária não escapou da deterioração progressiva, associada à falta de manutenção contínua. Ao longo das décadas, houve poucos investimentos consistentes para reformas. Hoje, muitas áreas do complexo estão obsoletas ou inativas. Para piorar, em 2024, o andar térreo ficou submerso. Isso revelou a vulnerabilidade da estrutura diante de eventos climáticos extremos.
Agora, vem o anúncio da reforma — uma resposta técnica, simbólica e… política, como bem sabemos. O governo do Estado autorizou a modernização do terminal (obra de manutenção apenas) na ordem de R$ 19,6 milhões a R$ 19,8 milhões, financiados pelo Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs).
O que a reforma prevê
Segundo o projeto, haverá uma intervenção estrutural e funcional na rodoviária de Porto Alegre, com foco em acessibilidade, segurança, conforto e recuperação dos danos causados pela enchente. Entre os serviços previstos estão:
Reorganização dos espaços de venda.
Reforma dos guichês de passagens intermunicipais e interestaduais.

Imagem reprodução Veppo em Facebook

Recuperação da laje inferior.
Modernização dos banheiros.
Impermeabilização total da cobertura.
Revitalização da fachada (com painéis coloridos e iluminação integrada).
Revitalização das plataformas de embarque e desembarque.
Pintura completa do prédio.
A saber, o terminal seguirá funcionando durante as obras, com isolamento gradual de setores.


Entre preservação e ruptura: uma leitura crítica do projeto
A reforma da rodoviária de Porto Alegre era mais do que necessária. Mas, ao analisar as imagens, podemos nos perguntar se recuperar é preservar. E mais, se reformar não seria reescrever a imagem de uma arquitetura e engenharia.
No passado, a estação foi símbolo de modernidade funcional. Por outro lado, a nova proposta sugere uma mudança de linguagem. A atualização visível para a fachada preocupa alguns mais conservadores — afinal, o que acontece com o caráter do edifício original, com clareza formal, honestidade estrutural e ausência de ornamentos supérfluos? Outros ainda questionam se, além do desenho, foi calculada a vida útil da obra, considerando um plano de manutenções futuras.

Estamos falando de um patrimônio histórico que passará por uma forte adaptação contemporânea. Será um grande desafio tratar esse edifício que já foi símbolo de inovação arquitetônica. A expectativa é grande. E o medo de muitos é que, durante a atualização de identidade, seja apagada parte da memória da cidade. Só mexer na fachada já pode criar um cenário genérico. Vale a reflexão.
Sem acesso a mais detalhes do projeto, toda essa história fica aberta a interpretações. Fato é que uma coisa é certa: a reforma deve tratar não só de aparência, mas de capacidade de resposta a eventos extremos. Esse é o melhor momento para reposicionar o equipamento diante do futuro. Um novo capítulo para a cidade, que deve revisar seus marcos, mas sem abrir mão da sua própria narrativa urbana.
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem arquivo Veppo
Vídeo complementar:





Comentários