Tudo o que você precisa saber sobre o novo polo urbano de Gramado
- Redação Portal Escala Humana

- 4 de mai.
- 4 min de leitura
A cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, tem sido pressionada pelo seu próprio sucesso. Esse destino turístico é hoje também um caso de estudo para os arquitetos. Entenda: hoje, a população (flutuante) na região é próxima de 100 mil pessoas — 40 mil residentes fixos e 8 milhões de visitantes por ano. Acontece que, na prática, há um descompasso entre infraestrutura e demanda. Por exemplo, o centro tradicional está muito saturado de comércios e serviços.
Nos últimos anos, especialistas em urbanismo têm proposto para Gramado uma redistribuição territorial estratégica, ou melhor, a criação de uma nova lógica de ocupação. Essa ideia tem orientado a elaboração do Projeto Urbanístico Relevante (PUR) de longo prazo, previsto no Plano Diretor. Chama atenção nessa proposta a criação de um novo pólo urbano em uma área de 900 hectares no bairro Mato Queimado.

É possível que este seja o surgimento de uma “nova cidade” dentro do município. E vamos além nesta nossa previsão: pode ser que este seja o ponto de partida para um dos projetos urbanísticos mais ambiciosos do Sul do Brasil.
Reconfiguração territorial e nova lógica de ocupação
Atualmente, praticamente toda Gramado depende muito dos serviços localizados no núcleo original. Isso tem gerado transtornos para a população, que precisa no seu cotidiano conviver com o turismo intenso na cidade, e também para a prefeitura, impedindo o avanço da ampliação habitacional planejada. Existe, então, um consenso de que é preciso equilibrar, com planejamento urbano, áreas de ocupação intensiva, zonas intermediárias, regiões de baixa densidade e corredores ecológicos.
Essa organização seria uma tentativa clara de evitar erros comuns de adensamento desordenado, criando uma hierarquia espacial que dialogue com a paisagem e com a capacidade ambiental do território.
Nova Centralidade da Região Norte
Em breve, Gramado pode ganhar um segundo polo autossuficiente a cinco quilômetros de distância, em uma macrozona urbana (MZ10) — que deve ter regras próprias de ocupação, usos definidos e diretrizes urbanísticas rígidas —, conectando novos vetores regionais, como a Rota do Sol e futuras vias. O objetivo é crescer melhor, densificando onde puder e respeitando onde não puder. Para começar, dos 900 hectares, aproximadamente 171 hectares ou 18,8% estão reservados a corredores ecológicos e áreas de preservação.
Agora, algo que chama atenção nessa proposta é a materialização do famoso conceito da “cidade de 15 minutos”, em que a população fica menos dependente do automóvel. O novo polo tem uso misto, permitindo que muito do cotidiano da população seja resolvido localmente e evitando que o bairro vire um “bairro-dormitório”. A prioridade são os pedestres, o transporte público e a mobilidade ativa — incluindo integração com diferentes modais.

Infraestrutura como pré-condição para o crescimento
O projeto de expansão urbana para Gramado se diferencia de muitos outros projetos similares executados pelo Brasil. Primeiro, porque sua incorporação depende do cumprimento de exigências ambientais, como a implantação de sistemas descentralizados de tratamento de esgoto com eficiência mínima de 80%; o uso de soluções baseadas na natureza (SbN) para drenagem urbana; a preservação de corredores ecológicos mapeados; a criação de parques lineares e bacias pluviais; além de compensações ambientais.
Também está previsto no projeto a geração de energia limpa por meio de painéis solares com potencial estimado em 14.455 MWh por ano — o suficiente para abastecer mais de 6 mil unidades habitacionais. O desenho dos lotes foi pensado para maximizar a insolação visando a geração distribuída. E edificações com sistemas integrando usinas solares. Isso inclui equipamentos públicos de grande porte, novo complexo cultural, novo Hospital Regional (ou ampliação/relocalização do hospital público), etc.

Arquitetura e projetos que já sinalizam a transformação
O projeto do novo polo urbano de Gramado nasce, portanto, de uma grande necessidade para engenheiros e arquitetos. A qualidade de vida da população está comprometida por conta da saturação do centro original, um problema que exige uma redistribuição de funções urbanas e o reequilíbrio da cidade.
Dito isso, vale explicar que esse modelo de implantação tem um ponto de inflexão: a área é privada e não prevê desapropriações. Cabe ao poder público definir normas, contrapartidas e estudos técnicos, fazer controle de padrões arquitetônicos e regular a ocupação. A expectativa é que a implementação ocorra de forma gradual. Ou seja, é um projeto de longo prazo que já começa a moldar o presente e o futuro de Gramado.
A arquitetura local deve mudar muito nos próximos anos. Diversos equipamentos da cidade (como prefeitura, câmara de vereadores e bancos) podem migrar ou ser duplicados no novo centro. Por outro lado, o centro tradicional poderá ser requalificado com mais apelo turístico e conforto ambiental, sem deixar de preservar a paisagem urbana e os edifícios históricos característicos. Os impactos podem ser diversos e ainda estão longe de serem totalmente compreendidos.

Encerramos este artigo com algumas provocações inevitáveis. Gramado conseguirá desenvolver seu novo núcleo urbano sem reproduzir fórmulas suburbanas genéricas? Saberá conter a pressão da especulação imobiliária que tende a afastar moradores e trabalhadores? E, sobretudo, conseguirá preservar a identidade que a tornou tão valorizada por gaúchos e visitantes?
Trata-se de um momento decisivo e cabe aos arquitetos ocupar uma posição estratégica nesse debate.
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem divulgação Prefeitura de Gramado, Bruno Stoltz, via G1






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