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Incêndios recentes no RS escancaram falhas que a arquitetura não pode mais ignorar

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • 15 de jan.
  • 4 min de leitura

Nos últimos tempos, foram registrados diversos casos de incêndios no Rio Grande do Sul. Três ocorrências chamaram mais atenção: as demolições de prédios centenários no centro de Porto Alegre, a explosão em um supermercado em Santana do Livramento e a destruição de um edifício histórico em Santa Maria. Isso reacendeu o debate sobre questões como verticalização urbana, Plano Diretor, PPCI e a responsabilidade do arquiteto na prevenção.



Sobre os incêndios que chamaram a atenção da população gaúcha


Quem não mora no Rio Grande do Sul talvez não tenha sido impactado com essas notícias. No final de 2025, três incêndios ganharam destaque no estado:



Imagem de Freepik
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Porto Alegre

Dois prédios e um casarão histórico localizados no Centro Histórico de Porto Alegre foram atingidos pelas chamas, resultando na posterior demolição de edificações do século XIX. Diante da perda irreversível do patrimônio histórico, houve uma grande comoção pública.



Imagem reprodução redes sociais via VEJA
Imagem reprodução redes sociais via VEJA

Na ocasião, muitos especialistas vieram a público questionar sobre o adensamento urbano da cidade, as condições das edificações antigas, os usos comerciais intensivos e os sistemas de prevenção limitados e ineficazes. Esse debate rapidamente se conectou com o da proposta do novo Plano Diretor da cidade, que prevê edifícios de até 130 m de altura em áreas centrais.



Santana do Livramento


Outro caso muito dramático foi o da explosão de um supermercado em Santana do Livramento, consequência de um fogo iniciado em um gerador mal posicionado. Na ocasião, vários bombeiros ficaram feridos após um fenômeno de backdraft (explosão violenta de fumaça que ocorre em incêndios confinados), reforçando que incêndios não são eventos previsíveis nem controláveis apenas pela experiência operacional. Quer dizer que falhas de concepção, ventilação e uso do espaço podem transformar um combate em tragédia.



 Imagem cena reprodução G1 - Globo
 Imagem cena reprodução G1 - Globo


Santa Maria


Por último, o incêndio começou no quinto andar do colégio Marista, em Santa Maria, que acabou comprometendo cerca de 25% da estrutura do edifício. Especialistas sugerem que as características construtivas, como elementos estruturais e acabamento em madeira, contribuíram para a rápida propagação das chamas — tese ainda não confirmada pelo Instituto Geral de Perícias. Existem outras hipóteses, como instalações elétricas ou obras recentes. De todo modo, do ponto de vista arquitetônico, o caso evidencia a vulnerabilidade de edificações históricas ou antigas diante de eventos extremos.



 Imagem reprodução redes sociais via G1 - Globo
 Imagem reprodução redes sociais via G1 - Globo


Por que os arquitetos precisam refletir sobre esses casos?


Infelizmente, esses incêndios não foram casos isolados nessa virada de 2025 para 2026. E não podemos nos esquecer de que o estado já sofreu um grande trauma no passado — e deveria ter aprendido a lição — com o incêndio da boate Kiss em Santa Maria no ano de 2013, que matou centenas de pessoas e expôs falhas em rotas de fuga e materiais inflamáveis.




Todos esses municípios afetados, em tese, possuem normas específicas que regem esquemas de segurança. No entanto, projetos arquitetônicos, alterações de Plano Diretor e legislação precisam evoluir de forma integrada. Não faz sentido permitir edificações cada vez mais altas se o Corpo de Bombeiros não estiver adequadamente estruturado e se a fiscalização não tiver capacidade real de prevenir e enfrentar desastres.


Sabemos que a política muitas vezes ignora alguns fatores e apressa decisões importantes em detrimento da análise, colocando em risco a população. Uma polêmica atual é quanto ao novo modelo de autolicenciamento, que transfere o ônus para profissionais privados sem uma análise pública prévia consistente. O que você acha?



Qual o papel estratégico da arquitetura na prevenção?


Engenheiros e arquitetos desempenham um papel fundamental na prevenção de incêndios. São definidas em seus projetos rotas de fuga, usos de materiais e compartimentações, considerando a lógica espacial que determina como o fogo e a fumaça se comportarão. Outras medidas complementares ajudam a salvar vidas, como a instalação de alarmes, hidrantes, extintores e sprinklers. O objetivo é criar edificações seguras, capazes de conter o fogo, permitir evacuação segura e possibilitar combate inicial autônomo, antes mesmo da chegada dos bombeiros.


São ações essenciais para arquitetos na prevenção de incêndios:


  • Integrar o PPCI (Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios) desde o estudo preliminar.

  • Definir corretamente rotas de fuga, com escadas protegidas, corredores bem dimensionados, saídas claras e geometrias intuitivas.

  • Projetar compartimentações horizontais e verticais, com paredes, lajes e portas contra-fogo compatíveis com o risco e o uso da edificação.

  • Especificar materiais de baixo risco ao fogo, priorizando revestimentos não inflamáveis e sistemas com compartimento previsível frente à fumaça e ao calor.

  • Garantir afastamentos e implantação adequados, reduzindo a propagação lateral do fogo, especialmente em áreas densas e centros históricos.

  • Desenhar fachadas e acessos que permitam o trabalho dos bombeiros, prevendo recuos, áreas de manobra e limitações reais das vias urbanas.

  • Compatibilizar medidas passivas e ativas, prevendo espaço e lógica para sprinklers, hidrantes, alarmes e sistemas especiais desde o início.

  • Atuar criticamente no detalhamento de Plano Diretor, vinculando altura, adensamento e uso do solo à capacidade real de resgate e combate a incêndios.

  • Exigir operação e manutenção pós-obra, prevendo brigadas, testes periódicos e revisões reais de desempenho, não apenas aprovações formais.



Imagem de snowing em Freepik
Imagem de snowing em Freepik

Considerações finais


Para concluir esse texto, gostaríamos de dizer que um dos maiores equívocos que cometemos como sociedade é tratar os incêndios como casos de exceção; e como profissionais da arquitetura, de empurrar a responsabilidade exclusivamente para o Corpo de Bombeiros ou para a fiscalização pública. E agora, diante de uma legislação que adota o princípio da autossuficiência da edificação, torna-se ainda mais essencial que os projetos arquitetônicos partam do pressuposto de que o resgate externo pode ser limitado ou até inviável.


Definitivamente, arquitetura não pode ser um cenário neutro para o fogo; ela pode ser aliada ou cúmplice. Aliás, o exercício profissional do arquiteto precisa assumir o compromisso de projetar para cenários extremos que, como a realidade demonstra, não são exceção — acontecem. Ignorar esse fato é um erro técnico e ético, que põe em risco cidades e usuários



Fontes:


Imagem de capa:

Imagem reprodução redes sociais via G1 - Globo


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