Crise hídrica em Porto Alegre: como a água molda a arquitetura e o urbanismo
- Redação Portal Escala Humana

- 8 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
Em outubro de 2025, os moradores de Porto Alegre foram surpreendidos por grandes intervenções simultâneas do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). A causa? A ampliação da capacidade do sistema de abastecimento de água em diversas localidades. Essa paralisação, embora temporária, não é um evento isolado. Especialistas questionam se não se trata de um sintoma mais visível de uma “doença crônica” que afeta a capital gaúcha e tantas outras cidades pelo Brasil: a relação disfuncional entre água e planejamento urbano.
Fato é que muitas metrópoles brasileiras possuem infraestrutura hídrica que não acompanha o ritmo da urbanização. Isso acaba tendo implicações profundas não apenas para a engenharia, mas também para a arquitetura e o desenho urbano. Falta um modelo mais eficiente de desenvolvimento.

Planejamento excludente e a falsa ideia de progresso
Começamos este artigo do Portal Escala Humana te pedindo para refletir sobre os padrões espaciais das cidades. Sabemos que, no Brasil, a maioria dos municípios opta pela canalização de fundos de vales, impermeabilização desenfreada e segregação socioespacial que empurra milhares de pessoas para as margens mais vulneráveis dos corpos hídricos.
Em Porto Alegre, por exemplo, o crescimento é desordenado, há uma ausência de políticas integradas de gestão hídrica, toda a cidade é vulnerável a interrupções (como a recente) e a maioria dos seres humanos vive em um ambiente profundamente modificado e insustentável.
Na verdade, nosso país sempre tratou a água como um recurso periférico dentro do planejamento urbano — algo a ser canalizado, escondido e esquecido. É uma verdadeira guerra contra a água disfarçada de suposta modernidade! Córregos foram entubados, nascentes soterradas e lençois freáticos ignorados. O resultado? Cidades impermeáveis, com escoamento superficial acelerado, enchentes recorrentes e redes de abastecimento sob pressão constante.

Essa lógica sempre priorizou grandes obras de infraestrutura cinza em detrimento dos processos naturais. Nesse caso, as enchentes não são “desastres naturais”, mas respostas previsíveis do ambiente a uma agressão histórica. A água simplesmente deveria ser um elemento de integração e beleza na paisagem urbana; contudo, tornou-se um marcador de desigualdade em cidades como Porto Alegre.

Arquitetura para um desenho urbano sensível à água
A forma como construímos nossos edifícios e nossos bairros determina nosso destino hídrico.
Os arquitetos devem entender que a água não é apenas um serviço, mas uma dimensão estrutural do espaço urbano. Por meio do projeto australiano ‘Water Sensitive Urban Design’, foi consolidado o conceito de “desenho urbano sensível à água”, que propõe a integração do ciclo hídrico ao tecido da cidade, desde a escala do lote até a bacia hidrográfica.
Traduzindo, significa repensar construções, equipamentos urbanos, áreas verdes e sistemas de drenagem como partes de um metabolismo urbano que deve imitar os processos naturais.
Cidades-esponja
Vale citar também neste artigo iniciativas como o programa ‘From Grey to Green’, de Portland, nos Estados Unidos, que propõe transformação de ruas em corredores verdes, com jardins de chuva, telhados verdes e biovaletas que captam, filtram e reutilizam a água da chuva. Cidades-esponja, como ensinava o famoso arquiteto Kongjian Yu, podem reter 10% a mais de água da chuva e reduzir significativamente picos de enchentes.
Infelizmente, os padrões espaciais repetidos à exaustão em Porto Alegre e em outras diversas cidades pelo Brasil são a receita perfeita para a crise. Um desenho urbano completamente insensível à água e que nos torna vulneráveis tanto a inundações quanto à seca. Não há reservatórios naturais no solo abastecidos e também não tem para onde a água da chuva seguir adequadamente.

A urgência de adaptar o que já existe
Muitas das soluções modernas de arquitetura para desenho urbano sensível à água rompem com a lógica da propriedade privada rígida, especialmente em assentamentos informais, onde a universalização do saneamento esbarra em questões fundiárias.
Para salvar nossas cidades, primeiro precisamos reconhecer que elas precisam ser reconfiguradas para lidar com a escassez e a variabilidade hídrica. Depois trabalhar para reconhecer os padrões espaciais irregulares e adaptar as políticas públicas a realidades diversas, sem modelos idealizados que só funcionam em países estrangeiros ou bairros de elite.
Retrofit hídrico
Já ouviu falar em "retrofit hídrico”? É adaptação do ambiente construído para um novo paradigma em que a água deixe de ser vista como uma ameaça a ser combatida, mas um recurso a ser integrado. É a transição da cidade de concreto para a cidade-esponja. Isso inclui:
Requalificar áreas públicas com pavimentos permeáveis e sistemas de biorretenção.
Incentivar as cisternas e telhados verdes em edificações existentes.
Abrir córregos e recuperar, de forma participativa, áreas de preservação permanente (APPs).
E gerir, de modo descentralizado, as águas pluviais por microbacias, com metas de infiltração por lote.

Porto Alegre como laboratório de arquitetura resiliente
Em Porto Alegre, falta uma visão integrada e sistêmica. É preciso repensar seu plano urbano buscando uma divisão territorial por bacias hidrográficas. Essa é uma tarefa que demandaria conhecimento de profissionais dos setores de água, esgoto, drenagem, mobilidade e meio ambiente. E não há momento melhor para isso considerando que a capital vem discutindo uma mudança no seu Plano Diretor.
A recente intervenção do Dmae pode ser um sinal de alerta. Basicamente, se a cidade quiser evitar crises cada vez mais frequentes, precisará avançar além da engenharia de tubulações! Talvez repensar a questão da absorção, armazenamento, purificação e reutilização da água. Criar incentivos fiscais para edificações com captação de chuva. E, novamente, reconhecer que a água não é um problema técnico isolado, mas o fio condutor de um novo modelo de urbanização.
🌎 Fontes:
📸 Imagem de capa:
Imagem de Gustavo Garbino/ PMPA em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:IBPA_134151_-_Centro_Hist%C3%B3rico_de_Porto_Alegre_alagado_pela_-_2024-05-05_-_Gustavo_Garbino-PMPA.jpg






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