As 10 lições mais preciosas de Kongjian Yu que todo arquiteto precisa aprender
- Redação Portal Escala Humana

- 6 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Em setembro de 2025, o mundo da arquitetura recebeu com imensa tristeza a notícia de que havíamos perdido para a morte o arquiteto e paisagista chinês Kongjian Yu. Mais triste ainda foi saber que ele faleceu na região do Pantanal brasileiro, enquanto visitava o país para compartilhar seus conhecimentos sobre resiliência e eventos climáticos extremos.
Para quem não sabe, esse profissional foi o criador do famoso conceito de cidades-esponja. Suas obras são referências de urbanismo ecológico, verdadeiros manifestos de como a construção humana pode e deve coexistir de forma simbiótica com a natureza.

A história desse visionário — desse vanguardista em arquitetura — jamais deve ser esquecida. Em seus 62 anos de vida, ele não apenas transformou a China mas também o mundo em relação à gestão hídrica urbana. Como presente, ele nos deixou um legado impressionante que transcende a paisagem e serve como manual de sobrevivência para cidades diante de um futuro ainda muito incerto.
Pensando nisso, o Portal Escala Humana listou as lições mais preciosas que Kongjian Yu oferece para a arquitetura contemporânea, baseadas em seus princípios, críticas e projetos mais emblemáticos. Confira!
1. A arquitetura é a arte da sobrevivência
Para Kongjian Yu, a arquitetura deveria ir muito além da estética ou do conceito de monumentalidade. Pelo contrário, ela deveria sempre ser utilizada como instrumento para guiar o planeta cada vez mais vulnerável, diante de um cenário de diversas mudanças climáticas — naturais ou antrópicas (ou causadas pelo homem). Nesse contexto, construir seria bem mais do que simplesmente erguer edifícios, mas encontrar um equilíbrio entre as obras materiais do homem com a natureza.
Conte-nos: qual a sua missão como arquiteto? Por que escolheu essa profissão?
Yu acreditava que arquitetos deveriam trabalhar incansavelmente para criar espaços capazes de resistir a eventos extremos e, ao mesmo tempo, oferecer a melhor qualidade de vida a seus usuários. Afinal, sua atuação para combater as dores da sociedade não deveria ser meramente estética (ou formal). Existe uma obrigação quase existencial de garantir que humanos e ecossistemas possam coexistir em harmonia!
2. A água deve ser acolhida, não combatida
Sabe quando nasceu o conceito das cidades-esponja? Bem, na verdade, Kongjian Yu estava realizando uma provocação quanto à ideia da engenharia tradicional, que normalmente adota uma postura de tentar expulsar a água das áreas habitadas pelos humanos por meio de diques, canais e uso intensivo de concreto. Diferente disso, esse arquiteto chinês incentivava que seus colegas olhassem para as enchentes como um fenômeno natural e as consequências destrutivas como apenas falhas nos projetos arquitetônicos.
Yu ensinou que o correto não era conter a água, mas criar cidades com volumes e materiais que pudessem absorver, filtrar e encaminhar a água para o seu destino correto. Assim, a água nunca mais seria um inimigo e sim reconhecida como recurso vital, integrando-se de forma produtiva ao ciclo urbano.

3. Substituir o cinza pelo verde
Kongjian Yu alertou inúmeras vezes que nossas cidades ao redor do mundo possuem um excesso de estruturas em concreto, canalizações rígidas e impermeabilização - ele chegou a chamar isso de “infraestrutura cinza”. As consequências disso são óbvias: muita poluição e danos relacionados a eventos como enchentes e inundações. E quem é a culpa de tudo isso? Nossa.
A proposta do arquiteto chinês era que passássemos a construir de um modo totalmente diferente, apostando alto em infraestrutura verde. Estamos falando de zonas úmidas, parques lineares, manguezais e vegetação nativa. Todos esses elementos, além de funcionarem como barreiras naturais, recuperam a biodiversidade e melhoram o microclima urbano.
4. Intervenções mínimas que geram impacto máximo
Ao longo de sua carreira, Kongjian Yu desenvolveu inúmeros projetos para revitalizar áreas que haviam sofrido com severos desastres naturais. Um exemplo é The Red Ribbon, uma faixa vermelha instalada à beira de um rio que ajudou a transformar toda uma área degradada em um espaço público vibrante. Detalhe: nessa obra, não houve derrubada de árvores, não houve agressão ao ecossistema.
Essa é a prova de que pequenas e simples intervenções, quando bem planejadas — considerando de modo sensível o meio ambiente —, favorecem essa relação dos seres humanos com a cidade e dos seres humanos com a natureza.
5. A paisagem é infraestrutura essencial
Muitos profissionais e clientes olham para a questão do paisagismo ou da jardinagem como se fossem uma decoração ou mero ornamento dentro de um projeto arquitetônico. Mas esse é um grande equívoco: beleza e funcionalidade não são opostos, mas complementares.
Primeiro, essas infraestruturas são vivas, capazes de recuperar águas poluídas, reduzir áreas sujeitas a alagamentos e restaurar solos degradados. Ao mesmo tempo, elas criam espaços de lazer, cultura e convivência. Exemplos marcantes dessa integração entre natureza e urbanismo podem ser vistos em projetos como o Shanghai Houtan Park e o Qunli Stormwater Park.
6. A sabedoria ancestral é fonte de inovação
Kongjian Yu nasceu e cresceu em uma zona rural e, por isso, possuía tanto conhecimento em práticas agrícolas tradicionais de manejo da água. Ele entendia bem sobre estruturas de valas de infiltração, reservatórios e vegetação adaptada ao regime das chuvas. Isso foi decisivo para que seus projetos fossem tão inovadores — havia um respeito a práticas antigas que foram adaptadas às demandas atuais das cidades. Essa foi sua inspiração para a criação do conceito moderno das cidades-esponja.

7. A cidade deve ser vista como organismo vivo
Para Yu, as cidades são como corpos humanos, atravessados por veias que precisam ser flexíveis e permeáveis para transportar água. Ou seja, uma cidade totalmente impermeabilizada é rígida e frágil. O oposto disso — uma cidade que se adapta e se regenera com as chuvas, que interage positivamente com ciclos naturais em vez de tentar controlá-los — é uma cidade-esponja.
8. Arquitetura deve unir cultura, ecologia e vida social
Kongjian Yu gostava muito de plantas, mas, como bom arquiteto que era, entendia bem que as pessoas deveriam, assim como as espécies naturais, ter seu espaço nas cidades. As áreas verdes, incluindo jardins botânicos e parques comunitários, não seriam apenas áreas verdes, mas também espaços de convivência, educação e identidade cultural. Assim, nos seus projetos ele ofereceu soluções para restaurar ecossistemas, criar zonas de lazer e inspirar pertencimento coletivo.
9. Resiliência é mais importante que estabilidade
Atualmente falamos tanto em cidades resilientes. Mas será que realmente sabemos o significado de cidades resilientes?
Kongjian Yu defendia que isso em nada tem a ver com uma arquitetura tentando dominar a natureza. Por exemplo, seus parques eram justamente projetados para se alagarem em épocas de chuvas intensas. Olhando para isso, podemos dizer que resiliência é a capacidade de adaptação criativa. Para a arquitetura, é transformar riscos em oportunidades.

10. O legado precisa ser global, replicável e engajado
Kongjian Yu esteve envolvido em mais de 500 projetos em 250 cidades. Ele recebeu dezenas de prêmios. Foi professor, pesquisador, ativista e influenciador de políticas públicas, sempre em busca de transformar paisagens e mentalidades.
O arquiteto defendia que soluções sustentáveis precisam ser replicáveis e economicamente viáveis, acessíveis a diferentes contextos urbanos. Ele pedia que as pessoas “ouvissem a terra” ao invés de dominar territórios. Desejava que os rios voltassem a correr livres, que os arquitetos dissessem não a tanto concreto e aço, e que as cidades aprendessem a “dançar com a tempestade”.
Sem dúvida, o legado de Kongjian Yu é um forte chamado para os profissionais de arquitetura. Em um mundo marcado por crises climáticas, ele partiu, mas não deixou uma mensagem final: a de que as “soluções baseadas na natureza” não são uma alternativa estética, mas uma necessidade técnica e moral para a sobrevivência das futuras gerações.
Você já considerou a integração de sistemas de cidades-esponja em seus projetos atuais? Deixe na aba de comentários deste artigo sua opinião sobre como o design pode atuar como um agente de resiliência climática.
Fontes:
📸 Imagem de capa:
Imagens reproduzidas de Wikipédia





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