top of page

Entre o "Silêncio" do novo e o patrimônio gaúcho: a lição de Cachoeirinha no Iconicidades

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • 9 de jun.
  • 4 min de leitura

A produção arquitetônica no Rio Grande do Sul sempre foi muito valiosa, mas, nos últimos anos, contou com um incentivo extra para a reflexão sobre sua apresentação formal, rigor intelectual e plasticidade. O concurso Iconicidades, promovido pelo Governo do Estado — cuja iniciativa contemplou cidades como Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, São Leopoldo e Cachoeirinha —, ajudou a sinalizar que era hora de uma mudança de paradigma na gestão pública regional e de uma inovação urbana urgente.


Neste cenário, o projeto vencedor da Casa de Cultura Demósthenes Gonzalez prova que os gaúchos têm grande capacidade de trabalhar com retrofit e intervenção sensível em tecidos históricos degradados. Confira mais detalhes neste artigo do Portal Escala Humana!



Imagem reproduzida de Troyano Arquitetura
Imagem reproduzida de Troyano Arquitetura

Iconicidades e a virada para um urbanismo mais ativo


Existe um entendimento entre especialistas de que a inovação urbana não nasce do novo absoluto, mas da capacidade de ressignificar o que já possui alma e memória.

Quando o Governo do Rio Grande do Sul lançou o concurso Iconicidades, a ideia era estimular a produção de projetos arquitetônicos para espaços simbólicos e impulsionar cidades mais inovadoras, criativas e empreendedoras. Traduzindo: fomentar a arquitetura qualificada no estado, servindo de exemplo de intervenção urbana com valorização do patrimônio, estímulo econômico e reativação de centros culturais.


A mensagem era clara: os arquitetos não devem apenas se preocupar com a estética dos edifícios, mas considerar usos, dinâmicas e a paisagem urbana como um todo. A arquitetura pode, inclusive, ser usada como ferramenta de política pública, conectando cultura, urbanismo e desenvolvimento socioeconômico.



 Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Concursos de Projeto
 Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Concursos de Projeto

Casa de Cultura de Cachoeirinha como laboratório de abordagem contemporânea


O grande vencedor do concurso Iconicidades foi o projeto para a Casa de Cultura Demósthenes Gonzalez, em Cachoeirinha, assinado pelo escritório Troyano Arquitetura e Arte. A seleção foi feita por comissões julgadoras independentes e especialistas do IPHAE (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado), e esse trabalho já é considerado um expoente da arquitetura contemporânea gaúcha.


O maior destaque dessa proposta é a clareza conceitual e a coerência entre discurso e solução arquitetônica.



Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí
Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí

Podemos ver que, nesse caso, o patrimônio foi reinterpretado como ativo cultural produtivo, não como um objeto congelado no tempo. O novo desenho propõe mudanças estruturais para que a residência passe a oferecer oficinas de música, teatro e dança. Com cuidado, os designers indicaram o que precisava ser mantido ou removido, e como o novo deve se portar diante do antigo. A abordagem foi guiada por quatro preceitos:


  • Revelar: Remoção de anexos desnecessários e limpeza de camadas de reboco e forro para expor a técnica construtiva do início do século XX, permitindo que a materialidade conte sua própria história.

  • Evidenciar: Adição de volumes como coadjuvantes, de forma “silenciosa, racional e despojada”.

  • Atender: Desenho de espaços para que o complexo possa operar de forma independente, — com auditório para 200 pessoas, bistrô, áreas de exposição e administrativas —, garantindo que o edifício seja autossustentável em termos de fluxo e uso.

  • Conectar: Tratamento urbano com percurso interno para integração da Casa de Cultura com avenidas adjacentes e a Praça do Ecoturismo. Destaque para o palco inverso do auditório, que se volta para a área urbana e devolve a conexão afetiva da comunidade com o Rio Gravataí.


Todas as decisões estéticas parecem ter como objetivo devolver a autenticidade ao patrimônio e restabelecer sua legibilidade. O edifício é valorizado em sua essência, mas os espaços também qualificam a experiência do usuário, permitindo múltiplas visões e percursos. E o mais importante é que nada de novo compete com o patrimônio — os acréscimos são simples e servem de pano de fundo.



Pode-se dizer que esse projeto é uma baita crítica à chamada “arquitetura espetáculo”. 



Imagem reproduzida de Troyano Arquitetura
Imagem reproduzida de Troyano Arquitetura


Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí
Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí


Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí
Imagem de Troyano Arquitetura reprodução via Giro de Gravataí

Esse modelo, embora ainda não executado, pode ser replicado e ser um referencial. Ele certamente aponta caminhos para boas intervenções em patrimônio histórico e o papel dos equipamentos culturais em cidades de médio porte.


Sustentabilidade e exequibilidade


Outra questão bem planejada por Troyano Arquitetura e Arte é a viabilidade de execução da obra da Casa de Cultura Demósthenes Gonzalez. A proposta prioriza o uso de recursos humanos e materiais locais e até técnicas construtivas acessíveis, ajudando a reduzir custos e fortalecer a identidade regional. Ademais, incorpora soluções sustentáveis, como cisterna, cobertura verde e energia fotovoltaica.



Retrofit como instrumento de transformação urbana


Olha que interessante: neste momento, Porto Alegre discute alterações em seu Plano Diretor. Uma das mudanças propostas é o fachadismo de obras de patrimônio. Mas o retrofit demonstrado nesse projeto para Cachoeirinha é bem diferente de uma restauração purista e também de uma simples manutenção de fachadas, ele busca a vitalidade e se vale de novas tecnologias, mas preserva valores estéticos e históricos.


Os profissionais devem observar atentamente esse movimento. A sociedade necessita — e espera — que o arquiteto mude sua postura diante de políticas públicas. Que seus projetos deixem de ser “objetos isolados” e passem a ser mais “dispositivos de transformação urbana”. Só que isso implica um esforço para ampliação de repertório. Então, você está pronto para esse desafio?


Retrofit é reprogramar edifícios, atribuindo novos usos e significados sem perder sua essência histórica. Trata-se de uma operação que equilibra memória e inovação. 


Fechamos este nosso artigo propondo a você uma reflexão sobre o valor do patrimônio como elemento estruturante da identidade coletiva e, simultaneamente, como ativo capaz de gerar impacto econômico e social.



Fontes:


Imagem de capa:

Imagem reproduzida de Troyano Arquitetura


Material complementar:


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page