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ONU reconhece projeto de Jaime Lerner para a Orla do Guaíba como referência global de urbanismo

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • 23 de jun.
  • 4 min de leitura

Durante séculos, os arquitetos defenderam arduamente a qualidade dos espaços públicos. Agora, os especialistas entendem que não há melhor indicador da inteligência urbana de uma cidade. E é justamente este entendimento que fez com que a ONU (Organização das Nações Unidas) reconhecesse o projeto da Orla do Guaíba, em Porto Alegre, concebido pelo escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, como modelo mundial de inovação urbana.



A notícia que coloca a capital gaúcha em evidência


A requalificação da Orla do Guaíba foi um projeto de intervenção idealizado especialmente para transformar uma das áreas de Porto Alegre com mais potencial, porém marcada pelo abandono, insegurança e subutilização. A proposta do escritório de Jaime Lerner foi concebida pela seguinte lógica:


protagonismo das pessoas + mobilidade urbana + regeneração urbana


Ou seja, de recuperação de território por meio da infraestrutura, paisagem, mobilidade, sustentabilidade e uso social. O resultado agradou aos porto-alegrenses.

Recentemente, esse longo trabalho colheu seu prêmio mais expressivo. A notícia de que a ONU reconhece o novo parque como referência em arquitetura é bastante significativa. Primeiro, ela valida, de certo modo, conceitos que o próprio arquiteto sempre defendeu em sua trajetória profissional, incluindo o poder das obras de urbanismo para a melhoria da qualidade de vida da população. Depois, coloca a capital gaúcha em evidência no cenário internacional.



Um projeto que materializa a “acupuntura urbana”


A área projetada pelo escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados faz parte de um complexo que se estende por aproximadamente 2,7 quilômetros, ocupando mais de 567 mil metros quadrados e conectando ícones da paisagem de Porto Alegre, como a Usina do Gasômetro. Ela foi desenhada como uma obra de infraestrutura, mas tornou-se um equipamento urbano multifuncional. O espaço reúne quadras esportivas, ciclovias, pistas de caminhada, áreas de contemplação, iluminação cênica, e muito mais. O destaque vai para o paisagismo integrado ao ambiente ribeirinho.


Hoje, podemos observar que o projeto gerou novos fluxos urbanos, fortaleceu atividades econômicas, ampliou o turismo local, estimulou a ocupação permanente do espaço  criou um novo eixo de convivência para a população. 

Ao apreciar a paisagem de Porto Alegre, a partir do estuário Guaíba, podemos nos lembrar do que é dito no popular livro ‘Acupuntura Urbana’, publicado em 2003. A obra cita o conceito de mesmo nome como exemplo de estratégia que pode ser adotado na elaboração de grandes projetos arquitetônicos, de modo a provocar transformações urbanas, sociais e econômicas — até muito além da sua própria área física de atuação. Uma complexa mudança de percepção coletiva sobre o território e sua função dentro da cidade.



 



Os primeiros rascunhos do projeto foram apresentados em 2011; já a proposta definitiva em 2015, quando o então prefeito de Porto Alegre assinou a ordem de obras. Em 2021, o parque recebeu o nome de Parque Jaime Lerner, após o falecimento do arquiteto.



A infraestrutura que conquistou os porto-alegrenses


Entre os gaúchos, há quem ame e quem não goste do projeto do Parque Jaime Lerner, acusando-o de provocar uma desconexão física e simbólica entre a cidade e sua frente d’água.


Opiniões à parte, é importante destacar como a proposta buscou valorizar a leitura da topografia, integrando paisagem e uso de materiais em estado natural — incluindo concreto, vidro, madeira e aço. As formas curvas remetem ao movimento das águas do Guaíba e ao desenho orgânico da orla. E os locais de contemplação (mirantes, escadarias e arquibancadas) estão voltados para o pôr do sol “mais bonito do mundo”. 




O Trecho 1 (conhecido como Orla Moacyr Scliar), inaugurado em 2018, recebeu só nos primeiros 30 dias 200 mil visitantes. Isso prova que os porto-alegrenses realmente abraçaram com entusiasmo o espaço e confirmaram seu uso cotidiano. Casos como esse provam que o Brasil tem, sim, muitos bons cases de urbanismo. E, além disso, que todo arquiteto deve ter essa mesma meta, de deixar, com seus projetos, uma marca transcendendo períodos políticos e ciclos econômicos.


Que possamos sempre executar arquiteturas que respeitem paisagens, integrem diferentes camadas sociais e construam identidades coletivas — sendo realizáveis e não… utopias.

O legado de Jaime Lerner para a arquitetura


A trajetória de Jaime Lerner está fortemente associada a Curitiba, sua terra natal, mas o arquiteto também desenvolveu uma relação profunda com Porto Alegre ao longo da última década de vida.


Lerner formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Paraná em 1964. Anos depois, ele participou da criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), que é referência mundial em planejamento urbano. Além disso, trabalhou como prefeito da capital por dois períodos consecutivos. Entretanto, foi no urbanismo que construiu seu legado mais duradouro, atuando até como consultor da própria ONU.




Em enciclopédias online, é fácil comprovar: o nome de Lerner está associado a algumas das transformações urbanas mais influentes do século XX, incluindo a criação do sistema BRT para transporte coletivo e a elaboração do Plano de Circulação Urbana. Aliás, em 2018, o arquiteto foi eleito pela revista Planetizen como o segundo urbanista mais influente da história moderna, atrás apenas de Jane Jacobs.



Enchentes de Porto Alegre


Quando Porto Alegre foi atingida pelas enchentes de 2024, grande parte da Orla do Guaíba sofreu danos. Foi então que todos perceberam a importância de se incorporar mais e mais estratégias de resiliência climática ao planejamento urbano da cidade. Diante disso, novos trechos do projeto estão sendo revisados para responder melhor a cenários ambientais complexos.



Fique atento! É possível que a obra do Parque Jaime Lerner seja um importante laboratório vivo sobre o futuro das cidades brasileiras.



Fontes:


Imagem de capa:

Imagem de Otávio Astor Vaz Costa em Wikipédia


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