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Incêndio em Flores da Cunha reacende debate sobre patrimônio e reconstrução

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • 1 de jun.
  • 5 min de leitura

Em maio de 2026, o povo de Flores da Cunha, município do Rio Grande do Sul, viveu um dos dias mais tristes de sua história. A Serra Gaúcha virou luto coletivo. Isso porque, em pouco mais de vinte minutos, as chamas consumiram grande parte da Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, construída entre 1904 e 1914.  Mais do que um símbolo de fé, de memória e pertencimento de uma comunidade, esta obra é um importante exemplar de arte gótica brasileira. Por isso, essa tragédia também fere a arquitetura.


Fica agora a pergunta: o que fazer com o que restou da construção? Fato é que existe um papel insubstituível da arquitetura na preservação da memória construída.



Como começou o fogo na Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes?


Precisamos debater, como estudiosos da arquitetura, o que ocorreu na Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes. Esse é um caso doloroso que serve de alerta sobre a vulnerabilidade de monumentos centenários e o papel crítico que os arquitetos e outros profissionais da área da restauração desempenham para salvaguardar a memória coletiva.


O fogo consome a matéria, mas raramente apaga a memória.


Imagem reprodução Paróquia Flores da Cunha
Imagem reprodução Paróquia Flores da Cunha



Por ora, o que se sabe é que a resistência do sistema construtivo da igreja foi colocada à prova de forma extrema. O incêndio começou por volta das 12h40 do dia 25, concentrando-se primeiro na porção superior da edificação, onde havia alta carga de material combustível (como tesouras e elementos de suporte em madeira seca antiga). O combate ao fogo mobilizou diversas guarnições e demandou cinco horas e 20 mil litros de água para ser concluído.


Infelizmente, o calor foi tão intenso, que o teto desabou sobre a nave, destruindo o mobiliário interno, o mezanino de madeira e a rede elétrica. Então, a arquitetura que  antes transmitia beleza, inspiração e a paz, foi substituída por um cenário de devastação.


Vale destacar que o sinistro ocorreu durante uma fase em que a igreja passava por uma obra de reforma de troca do telhado metálico — as últimas chapas seriam colocadas naquela mesma tarde. Essas são as mesmas chapas metálicas que vemos tombadas sobre as calçadas nos próprios registros fotográficos realizados por jornalistas horas depois. E, ao cair da noite, o Corpo de Bombeiros Militar emitiu um auto de interdição total do complexo. 



Quais as possíveis causas do sinistro em Flores da Cunha?


O espaço de oração e convívio da comunidade de Flores da Cunha foi seriamente danificado. O choque térmico da água fria jogada pelos bombeiros contra o material em chamas, além da sobrecarga hidráulica, provocaram um desgaste profundo dos revestimentos e das alvenarias da Igreja Matriz. Dois dias depois, equipes técnicas do Instituto-Geral de Perícias (IGP) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS) fizeram as primeiras avaliações in loco.




Os peritos usaram drones e levantamento fotográfico para tentar identificar quais as causas do incêndio. As conclusões preliminares sugerem que tudo começou mesmo na parte superior da edificação, entre o forro e o telhado — região que coincide com o local onde a obra de substituição das chapas estava em andamento. Uma das hipóteses levantadas é de curto-circuito. Mas a entrada de energia foi analisada e não apresentou vestígios conclusivos de falha elétrica.


O risco ainda permanece, motivo pelo qual a interdição continua mantida por prazo indeterminado. A expectativa é de que o laudo final do IGP seja concluído após o dia 27 de junho.



Como ficou a estrutura


Provavelmente, o caso se agravou por conta da cobertura antiga. A madeira seca é um acelerador de incêndio de altíssima eficiência. O fogo, nesses casos, alastra-se muito rapidamente, e não haveria tempo hábil para salvar integralmente a edificação.

Especialistas do IGP avaliam que os tijolos maciços da estrutura externa parecem preservados, o que é o mais relevante neste primeiro momento. O altar-mor, construído em alvenaria com revestimento e peças procedentes da Itália, permaneceu preservado. Também permanece o campanário de basalto de 55 metros e 11.122 pedras da Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, datado do ano de 1949. Até uma imagem de Cristo foi retirada intacta nos escombros.



O que fazer agora: restaurar ou reconstruir do zero? 


Pode-se dizer que a “sobrevivência” das paredes estruturais representa a diferença entre uma obra de restauro e uma reconstrução do zero. O que se perdeu foi “pele” e cobertura. Mas é preciso ter prudência nessa avaliação. O veredito final vai depender mesmo de ensaios complementares e laudos definitivos. Do ponto de vista técnico-construtivo, há esperança. Já do ponto de vista econômico, fica o questionamento: vale a pena a reconstrução?


Então, sim, vale a pena, embora todos já saibam que o processo não será simples. Reconstruir um monumento de arquitetura tão severamente danificado vai além da questão construtiva; é uma questão de interpretação, autenticidade e intenção. Será preciso investir em muitos recursos técnicos e financeiros. Por isso, também deve-se considerar o custo por metro quadrado.


Gestores públicos precisam levar em conta nessa hora a importância do edifício como âncora de identidade e pertencimento. A Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes é o marco zero da paisagem de Flores da Cunha. E quando uma arquitetura assume esse peso afetivo e cultural, sua perda acaba afetando até a identidade e os laços da comunidade. Então, nesse caso, o viável é justificável. 


O valor intangível do monumento supera o pragmatismo da demolição. 


O papel do arquiteto


A condução de qualquer processo de restauro ou reconstrução depende de um esforço coordenado. Para começar, ele exige a presença de arquitetos especialistas em restauro de patrimônio histórico. Em parceria com esses profissionais devem estar engenheiros civis com conhecimento de estruturas históricas e diagnósticos não destrutivos, historiadores e artífices locais. 


O arquiteto experiente em ‘arqueologia construtiva, análise e crítica’ conseguirá mapear adequadamente as patologias geradas pelo fogo e pela água do combate. 


O novo projeto deve integrar de forma invisível, mas eficaz, tecnologias modernas de prevenção e combate a incêndio. Antes desse detalhamento, os projetistas enfrentarão o dilema entre recriar fidedignamente o telhado e o forro originais ou adotar uma abordagem contemporânea, que dialogue com o esqueleto remanescente, deixando clara a distinção entre o antigo e o novo.


Só lembrando que é impossível a reconstrução do tempo original, mesmo a reconstrução sendo feita com rigor, respeito e competência. Ou seja, o peso simbólico não tem substituto.


Hoje, Flores da Cunha tem uma cicatriz no coração de sua paisagem urbana; mas essa cicatriz não deve ser apagada. Para construir um futuro mais resiliente, o passado e o presente devem caminhar juntos na evolução da cidade. Agora, o desafio é unir técnica, sensibilidade e planejamento para criar soluções que preservem a autenticidade do patrimônio sem abrir mão da adaptação e da continuidade de sua história.



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