Conheça o condomínio de luxo no Rio que transformou a estética popular em ativo imobiliário
- Redação Portal Escala Humana

- 2 de mar.
- 4 min de leitura
É curioso como a internet nos apresenta todo dia tantas novidades, mas também nos permite resgatar histórias que estavam esquecidas pelo tempo. As redes sociais são um ótimo espaço (webespaço) para se lançar ou renovar debates de arquitetura. Recentemente, por exemplo, um condomínio residencial de quase 50 anos virou pauta em vários sites e perfis de design e construção civil. Informalmente, o Parque Maria Cândida Pareto, no Humaitá, zona sul do Rio de Janeiro, foi chamado de “faveluxo” — um rótulo que, por si só, já resume as divergências de opiniões quanto ao projeto.
Por um lado, precisamos admirar esse conjunto habitacional. Porque, afinal, na arquitetura, a polêmica nasce exatamente no contraste. Mas alguns se perguntam se a estética associada às favelas ou comunidades mais pobres pode ser apropriada, ressignificada ou talvez, possamos dizer, comercializada como um ativo imobiliário. Será que essa arquitetura faz sentido quando ela é retirada do seu contexto social?

Real estate de luxo inspirado na habitação popular
O projeto do conjunto habitacional Parque Maria Cândido Pareto, localizado entre o bairro de Botafogo e a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, foi idealizado por Sérgio Bernardes no ano de 1978. O condomínio reúne 60 casas distribuídas em 11 níveis escalonados, acompanhando a encosta do morro. A circulação que leva ao acesso das unidades e às áreas comuns é feita por dois elevadores tipo bondinho. A estética das construções, com volumes sobrepostos e uso de tijolo aparente, é, de longe, facilmente confundida com uma comunidade informal.
Todavia, as casas à venda no “faveluxo” são anunciadas por mais de R$ 2 milhões — com o 1 m² variando entre R$ 13 mil e R$ 16 mil. Muitos corretores enfatizam que tal arquitetura é justamente valorizada por transmitir uma “brasilidade pura”.
O reaproveitamento do conceito
Antes de julgar qualquer decisão arquitetônica, precisamos voltar no tempo e entender a trajetória de Sérgio Bernardes.
Esse designer, ainda na década de 1960, estudava soluções arquitetônicas para remodelação de favelas cariocas, especialmente em áreas de risco, como Irajá. Ele sempre defendeu a criação de habitações mais compactas, modulares e com layouts com possibilidade de expansão progressiva. Tal jeito racional de pensar a moradia era como o profissional entendia ser a melhor resposta da arquitetura a um problema estrutural da cidade.
Infelizmente, esse modelo de solução nunca chegou a ser implementado para quem realmente precisava dele. Estéticas semelhantes foram, pouco a pouco, sendo absorvidas como um produto imobiliário de alto padrão.
Segundo Beatrice Goldfeld, filha do incorporador Szloma Goldfeld, responsável pela obra do Parque Maria Cândido Pareto, a intenção era evitar impactos visuais na montanha, respeitando a natureza. O resultado foi o conjunto habitacional bem adequado ao relevo, com ruas internas seguindo o desnível natural e casas com vistas preservadas para ícones cariocas. Então, será que os moradores têm do que reclamar? E não são eles os clientes da arquitetura?
Mas alguns questionam que estamos admirando uma solução técnica que, na verdade, consome a estética da precariedade como um artigo de luxo.

Afinal, favela é estilo ou é condição social?
O que será que incomoda tanto os arquitetos nessa obra do Rio de Janeiro? Será que é a forma ou é o discurso que se constrói ao redor dela? Lembrando que esse discurso não foi criado por Sérgio Bernardes, mas por quem gera conteúdo sobre o Parque Maria Cândida Pareto.
Existe uma diferença entre as comunidades e o “faveluxo”. As favelas não são um estilo arquitetônico deliberado, mas o resultado direto da ausência do Estado, da informalidade, da autoconstrução e da urgência habitacional. E realmente, nessas áreas urbanas, é comum vermos tijolo aparente, sobreposição de volumes e ocupação de encostas. Por isso, dá para entender o porquê dessa estranheza, quando vemos essa identidade deslocada para o empreendimento de luxo.
Agora, será que não podemos aceitar que Sérgio tenha usado as favelas como inspiração para uma arquitetura brasileira vernacular? A saber, esse estranhamento inicial é, para os moradores, recompensado por boa localização, assinatura renomada e integração à natureza.
Como interpretamos a desigualdade urbana no espaço construído
Esse debate sobre o que é arquitetura de luxo, o que é arquitetura das comunidades e os limites éticos do uso desses repertórios pelo mercado imobiliário é extremamente sensível. É inegável que muitos empreendimentos pelo Brasil vêm se apropriando da estética e da lógica da autoconstrução presente nas favelas para construir uma narrativa de exclusividade — com um discurso de homenagem disfarçado de apropriação.
O Parque Maria Cândida Pareto mostra, assim, que a lógica construtiva popular, quando qualificada pelo projeto técnico e acompanhada de infraestrutura adequada, pode se tornar uma alternativa mais coerente e eficiente do que a repetição do modelo estético estrangeiro que ainda domina tantas capitais brasileiras.

É possível que o “faveluxo” cause tanto incômodo justamente porque expõe uma ferida urbana bem conhecida: a convivência diária entre exclusão e privilégio. Ou, de forma ainda mais direta, revela o preconceito ancorado no valor atribuído aos espaços. Os mesmos elementos arquitetônicos podem ser interpretados como precariedade ou como exclusividade de alto valor agregado, dependendo do contexto — e, sobretudo, de quem os ocupa, quando se trata do mercado imobiliário.
Pense da seguinte forma: como explicar aos nossos clientes e à sociedade que a mesma arquitetura que “resolve” a favela serve para o alto padrão? É isso!
Para concluir, é válido reconhecer e celebrar essa genialidade técnica, sem abrir mão de aprofundar o debate sobre seus limites éticos. Afinal, a forma nunca é neutra. Contexto importa tanto quanto conceito.
Podemos nos inspirar nas favelas, mas com responsabilidade e consciência de que a apropriação estética sem inclusão social pode gerar ruídos. E, por fim, reconhecer que ali não há apenas soluções espaciais inteligentes, mas histórias de resistência, condicionadas por escolhas — e, muitas vezes, pela falta delas.
Fontes:
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Imagem divulgação projeto reprodução via Agenda do Poder






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