O equipamento urbano subestimado que funciona como termômetro social das cidades
- Redação Portal Escala Humana

- 22 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
Quer saber se o urbanismo de sua cidade é bem-sucedido ou não? Comece identificando onde estão os banheiros públicos a partir do bairro central.
Esses espaços são muitas vezes negligenciados pela arquitetura — ou encarados como meros anexos nas propostas de planejamento urbano; contudo, é um ótimo indicador de vitalidade urbana, dignidade e inclusão. E não se resume a uma necessidade utilitária; estamos falando de instalações capazes de transformar a percepção que moradores e visitantes têm de um lugar.

Pode não parecer, mas a presença de banheiros públicos em uma área planejada é capaz de fazer as pessoas se sentirem confortáveis nela. Quando bem projetadas e mantidas, essas instalações comunicam segurança, acolhimento e respeito, transmitindo a mensagem de que a população é uma prioridade e de que todos são bem-vindos.

O curioso é que, mesmo com tanta importância, os banheiros públicos acabam constantemente excluídos dos projetos de arquitetura e dos orçamentos de gestões públicas. E esse tipo de obra não deveria ser encarada como um custo, mas como um investimento em dignidade, um instrumento de placemaking e um pilar fundamental das lutas sociais.
A história da arquitetura dos banheiros públicos
No século XIX, os processos de urbanização provocaram a criação dos primeiros banheiros públicos — entretanto/no entanto, naquela época, a maioria era destinada apenas para homens brancos. Mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência eram excluídas desses espaços.
Até no Brasil, demorou para que a criação de banheiros unissex e individuais fosse vista/ocorresse. Hoje, a resolução nº 2, de 2023, garante o acesso de pessoas trans e não binárias a banheiros e vestiários de acordo com a sua identidade de gênero, promovendo segurança e privacidade.

Em resumo, a luta por banheiros públicos acessíveis e inclusivos nas cidades reflete um pouco da luta por direitos civis. E a arquitetura dos banheiros públicos pode ser um agente de transformação social.
A arquitetura de exclusão e seu impacto social
Quando um plano diretor ou um projeto urbano ignora a previsão de banheiros públicos, está omitindo uma comodidade e, ao mesmo tempo, agindo de forma excludente. Isso porque a falta desses equipamentos deve impactar o dia a dia não só de moradores de rua, mas também de outros cidadãos, especialmente idosos, crianças, pessoas com condições médicas e cuidadores.

Essa negação do acesso ao banheiro digno para a população agrava situações de desigualdade e insalubridade.
A arquitetura, ao contrário, deveria ser uma ferramenta de (positiva) higienização social, de inclusão e de acolhimento.
A questão dos banheiros públicos também afeta diretamente a vitalidade econômica e social de uma cidade. Por exemplo, uma zona de parque, centro de compras ou centro comercial sem banheiros verá seu tempo médio de permanência despencar e se tornará apenas um local de passagem. Mas toda percepção pública muda se as pessoas encontram no local banheiros limpos, bem abastecidos e com funcionários para garantir a manutenção.

Termômetro da confiança pública
A confiança pública é construída por meio de pequenos detalhes. Algumas pessoas diriam que não gostaram de Nova York porque a cidade não possui banheiros públicos. De fato, esse é um problema social profundo na cidade.
Mesmo com milhões de habitantes e visitantes, a Big Apple conta com apenas 1.103 banheiros públicos, sendo apenas dois abertos 24 horas por dia. E muita gente que não tem acesso a banheiros privados acaba buscando por soluções improvisadas, quase sempre em locais inseguros ou inadequados, o que só reforça a marginalização de grupos historicamente excluídos.
Mais investimentos em sanitários fariam as pessoas terem uma impressão diferente de Nova York. Por outro lado, seria péssimo se a prefeitura realizasse obras superfaturadas ou infraestruturas superdimensionadas apenas para elevar a confiança pública. Na verdade, ninguém exige que banheiros públicos sejam luxuosos, mas funcionais, seguros e sustentáveis. Dá até para automatizar essas instalações!
Os banheiros públicos como catalisadores da mudança social
É fundamental que os arquitetos não permitam que os banheiros públicos sejam meros quadrados nas plantas baixas de projetos urbanos. Sua implantação precisa ser em local estratégico — e não aleatório — um ponto de convergência e de alta permeabilidade, bem integrado aos fluxos dos pedestres e visível, para promover segurança natural.
Esse projeto precisa apresentar tipologia neutra (de design universal) e ser à prova de futuro e de vandalismo. O ideal é que ele faça uso de materiais duráveis, de baixa manutenção e fáceis de limpar, como aço inox, granito e porcelanato antiderrapante — não por uma questão de custo, mas como premissa de viabilidade. Também vale especificar torneiras e vasos com acionamento automático. E, assim como a NBR 9050 pede, todos os itens de acessibilidade, como o desenho da cabine, a altura dos equipamentos e as barras de apoio, devem estar integrados ao partido arquitetônico desde a concepção.
Enfim, projetar banheiros públicos não precisa ser algo complicado. Basta pensar que eles precisam atender bem as necessidades de todos os grupos; isso é o mínimo necessário para garantir inclusão e respeito à diversidade.
Todo arquiteto carrega, em sua formação, o conhecimento/a formação necessária para enfrentar esse tipo de projeto — além de uma dívida social que não pode mais ser ignorada. Talvez seja o momento de a profissão assumir, sem hesitação, a responsabilidade de construir cidades mais justas, inclusivas e, sobretudo, habitáveis. Afinal, os banheiros públicos que esses profissionais projetam são o primeiro sinal do grau de civilização de uma sociedade.
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