Projeto de estufa geodésica em Esteio destaca aplicação prática da geometria na arquitetura
- Redação Portal Escala Humana

- 22 de jan.
- 4 min de leitura
A arquitetura é arte e, como tal, sempre buscou aprimorar sua estética. Já no período moderno, a preocupação passou a ser a funcionalidade. Hoje, é a eficiência formal que mais preocupa os projetistas — esse é um imperativo ético e técnico. E mesmo que muitas produções brasileiras ainda estejam presas ao velho modelo cartesiano dos ângulos retos, uma geometria curvilínea volta a ganhar protagonismo no cenário nacional: os domos geodésicos, especialmente utilizados para criar estufas geodésicas.
Para este artigo do Portal Escala Humana, trouxemos como exemplo o case da Horta Escola Dona Flora, inaugurada no final de 2025 na cidade de Esteio, no Rio Grande do Sul. Esta é a primeira estufa geodésica do estado focada em cultivo coletivo. E a obra, além de impactar no visual, nos convida a refletir sobre segurança alimentar, educação ambiental e formas de produção artística que rompem com os padrões tradicionais do mercado da construção civil.

O que são domos ou cúpulas geodésicas?
Muitos leitores do nosso portal já devem dominar o conceito das cúpulas geodésicas; porém, outros não. Então vale explicar que, do ponto de vista da Arquitetura e da Engenharia, esse é um tipo de estrutura composta por uma malha de triângulos interconectados, formando uma superfície curva autoportante.
Em muitos projetos, a cúpula geodésica é utilizada por questões estéticas. Contudo, na maioria das vezes, é para reduzir esforços concentrados e aumentar a estabilidade global — já que os domos têm perfil aerodinâmico e distribuem as cargas de forma mais eficiente, utilizando muito menos material em comparação a sistemas ortogonais.
Diferente das estruturas convencionais, onde a carga é transmitida verticalmente para fundações pontuais, no domo, a própria "pele" é estrutural. Aliás, essas estruturas compostas por triângulos suportam ventos muito mais intensos e variações térmicas.
Surpreendentemente, uma edificação em forma de domo ou cúpula geodésica apresenta uma melhor relação entre o volume interno e a área de superfície externa. A perda térmica é menor e, por isso, a eficiência energética é maior.


Por que os domos geodésicos interessam à arquitetura contemporânea?
As estruturas geodésicas foram criadas no século XX, ícones futuristas dos anos 70, inspirados nos estudos do designer Buckminster Fuller. Desde então, elas nunca desapareceram do radar da arquitetura experimental. E nos últimos anos, voltaram a ocupar espaço em discussões centrais sobre eficiência estrutural, sustentabilidade, uso social do espaço e economia de recursos. O motivo é simples: poucas tipologias construtivas conseguem aliar tão bem desempenho estrutural, impacto ambiental reduzido e forte apelo simbólico.
A forma esférica permite vencer grandes vãos estruturais com uma estrutura leve. A economia de materiais (revestimento e fechamento) reduz o impacto ambiental da obra. Além disso, o formato da estrutura favorece o aproveitamento de iluminação natural e a circulação do ar — a ausência de "cantos mortos" elimina a estagnação. Justamente esse controle térmico é o que justifica o uso de domos para pavilhões, salas de aula, espaços de exposição e equipamentos comunitários.
O case gaúcho da estufa geodésica
Especialistas garantem que esse desempenho térmico natural é o fator determinante para o sucesso da estufa em Esteio. A face esférica permite que a luz solar incida perpendicularmente em algum ponto da estrutura durante todo o trajeto do arco solar, maximizando a transmitância luminosa para a fotossíntese.
A estufa geodésica da Horta Escola Dona Flora, localizada na Casa de Cultura Hip Hop de Esteio — executada pela Steelfy Estufas Agrícolas em parceria com o Instituto Integrar-RS e patrocínio da Petrobras — é um objeto arquitetônico, uma solução agrícola e uma ferramenta de interação social. A estrutura construída com aço e fechamento translúcido abriga cerca de 800 plantas em um espaço de 70 metros quadrados. Internamente, foram instaladas bancadas para uso de canteiros cuidadosamente projetados para uma ergonomia pedagógica, permitindo que escolas da região utilizem o espaço como laboratório vivo de agrotecnologia.


Como essa notícia impacta o trabalho dos arquitetos gaúchos?
Para os arquitetos, o detalhe que chama mais atenção nesse projeto de Esteio é a logística de montagem; o processo de construção é ágil e sem desperdícios. Agora, o modelo pode ser replicado em outros projetos de arquitetura social pelo Rio Grande do Sul, como, por exemplo, na ocupação qualificada de espaços vazios. Sem dúvidas, essa pode ser uma boa solução para o melhor reposicionamento da arquitetura gaúcha diante dos desafios contemporâneos.
Entendemos com esse case que soluções arquitetônicas inovadoras não precisam ser caras ou complexas. Demonstra-se que forma, estrutura e função social podem caminhar juntas, e que os domos geodésicos deixaram de ser meros experimentos de expressão e podem integrar políticas públicas e projetos institucionais em nosso estado. Por fim, reforça que a arquitetura deve ser democrática, viável para um urbanismo tático e assumir um papel direto na promoção da segurança alimentar e educação ambiental.
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem reprodução Casa da Cultura Hip Hop de Esteio (Instagram)






Comentários