A arquitetura que salva vidas: por que projetar também é prevenir, proteger e reconstruir?

Nos últimos anos, o Brasil tem passado por diversos eventos extremos como enchentes, tornados e desastres socioambientais que escancararam a fragilidade das nossas cidades diante das ameaças climáticas e sociais. Todas essas perdas, sobretudo de infraestrutura, só comprovam a total vulnerabilidade urbana de nosso país. Podemos encarar essa situação como um grande teste para a arquitetura e sua capacidade de apresentar soluções para resiliência, adaptabilidade e, sobretudo, proteção de vidas.
Entenda que sua obrigação, arquiteto, não é apenas projetar edifícios: você é um agente com poder de transformar, prevenir e reconstruir cidades com uma abordagem holística e socialmente responsável. Quer dizer que devemos repensar nosso papel nessa difícil tarefa de proporcionar espaços mais seguros, acessíveis e sustentáveis.

Afinal, o que podemos fazer para ajudar as cidades a passarem pelas transformações de que necessitam, sendo mais resilientes? Faz parte da essência da arquitetura assegurar ambientes construídos capazes de proteger corpos, memórias, ecossistemas e comunidades que neles se reconhecem.

A arquitetura como vetor de prevenção e segurança
Já comentamos aqui, no Portal Escala Humana, que o arquiteto tem sido deixado de lado em diversos processos de revisão de planos diretores de cidades brasileiras. Inclusive, na ocasião questionamos sobre o que acontece com cidades que não possuem o devido planejamento urbano resiliente, que incorpore infraestrutura verde e sistemas naturais de drenagem, e que possa mitigar os impactos de eventos extremos e proteger ecossistemas.
Vimos como o desmonte institucional, a flexibilização das leis ambientais, o esvaziamento dos órgãos de planejamento, a ganância financeira e a ausência da arquitetura nos processos decisórios de território agravam os riscos.
Testemunhamos, nesse meio tempo, o triste caso de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, onde um tornado destruiu cerca de 90% da cidade. Em momentos como esse temos ainda mais a certeza da urgente necessidade de colocar profissionais de arquitetura no centro da agenda pública de prevenção e reconstrução.

Agora, vale repensar também o que é de fato tragédia e o que é consequência direta de decisões políticas e projetuais (ruins) tomadas ao longo de décadas. Porque prevenir exige antes planejamento baseado em ciência e governança! Mas se as pessoas não acreditam mais em nada disso, como podemos recuperar a lógica da arquitetura, da engenharia, da proteção ambiental, da adoção de ideias inovadoras e dos investimentos em tecnologias revolucionárias?
A segurança como ato de resistência e dignidade
Logo que o ser humano passa por uma situação tão horrível quanto uma guerra, percebemos que arquitetura é proteção física e psicológica; por exemplo, um edifício não é apenas um abrigo do corpo, mas também das nossas emoções, identidades, cultura e confiança. Sabemos bem o quanto precisamos de hospitais, escolas, áreas verdes e tantos outros equipamentos urbanos.

Quando perdemos tudo, só nos resta uma alternativa: a reconstrução. E reconstruir também não é tarefa fácil; vai depender da colaboração de moradores para desenvolver soluções que atendam às suas necessidades reais. Faz-se necessária a reutilização de materiais e o fomento à economia circular para melhora da economia, evitando o êxodo das populações afetadas.
O absurdo é que nem precisaríamos chegar a esse ponto se investíssemos mais em prevenção. Aliás, a título de curiosidade, estudos internacionais mostram que cada dólar investido em prevenção economiza até 15 dólares em reconstrução.
O futuro das cidades moldado por consciência e resiliência socioambiental
Não podemos concluir este artigo sem deixar claro que reconstruir não é “erguer de novo”. É corrigir os erros, é refazer com outra lógica, é recuperar identidades, fortalecer vínculos, criar novas relações cidade-natureza. Ou seja, é repensar as cidades!
Esse processo precisa envolver comunidades, ativar o conhecimento local, mapear perdas materiais e imateriais, identificar territórios que não devem ser ocupados novamente, realocar famílias com dignidade, usar imóveis ociosos das áreas centrais e instalar novos equipamentos públicos como âncoras sociais.

Os arquitetos precisam voltar a fazer parte da revisão de todos os planos diretores, planos de contingência e planos de resiliência das cidades brasileiras. Esses profissionais possuem o conhecimento necessário para costurar essas camadas com técnica, escuta, ciência e sensibilidade.
Não há transformação sem arquitetos e urbanistas. Não há futuro sem planejamento. E não há planejamento sem colocar vida — humana e não humana — no centro do projeto.
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