Projeto de TCC propõe Centro de Resistência Indígena em Ijuí, subvertendo a lógica colonial no design
- Redação Portal Escala Humana

- 28 de mai.
- 4 min de leitura
Sabemos que o Rio Grande do Sul possui em sua história um grande vínculo com a cultura europeia, sobretudo por conta da imigração alemã e italiana. Mas nossa população também é descendente de outros povos. E, além disso, nossa terra já era a terra dos indígenas antes da chegada do homem branco. Apesar de todos terem bem clara essa informação, há quem questione se não ignoramos a cultura, incluindo a arquitetura indígena ou negra, priorizando projetos “europeizados” no estado.
O Portal Escala Humana gostaria de chamar a atenção do leitor para o tipo de arquitetura que é ensinada hoje nas academias gaúchas. Também para o que podemos aprender com os estudantes universitários — jovens futuros arquitetos que vêm de uma nova geração, talvez mais consciente sobre a importância de resgatarmos com respeito a memória dos nossos antepassados (brancos, negros e indígenas) e realizarmos qualquer reparação histórica necessária.
O projeto acadêmico que nos faz repensar a arquitetura do RS
Nosso compromisso, dentro do jornalismo, é compartilhar narrativas e ajudar arquitetos a repensarem seu ato de projetar no Brasil. Por exemplo, no RS, precisamos urgentemente de espaços urbanos melhor planejados — da volumetria, ao uso de materiais e fluxos espaciais. Imagine agora se fizéssemos isso sob a ótica da tradição indígena. Muito bom, não? Essa é a proposta de Eduarda Berno Palharini, formanda em Arquitetura e Urbanismo pela Unijuí.
Em seu TCC, intitulado “Tekoha: Centro de Resistência e Cultura Indígena do Rio Grande do Sul”, sob orientação do professor Tarcísio Dorn de Oliveira, Eduarda simulou a construção de um complexo de 10 mil metros quadrados. Se erguida, essa obra seria um manifesto vivo contra o esquecimento da cultura dos povos originários e uma exaltação à arquitetura indígena bem no coração da região autoproclamada ‘Capital Mundial das Etnias’
A proposta é realmente simples: colocar a arquitetura diante de sua própria história.
E a crítica é direta: valorizar o indígena não como gesto de benevolência, mas como reconhecimento de sua origem na formação da cultura gaúcha.
A memória de Itaí e o processo de apagamento cultural
Antes de entender melhor a proposta de Eduarda Berno Palharini, precisamos voltar no tempo, pela história do distrito de Itaí, em Ijuí. Há registros de que, nas décadas de 1950 e 1960, era política comum (muitas vezes ligada a instituições religiosas) retirar crianças de suas aldeias para “integrá-las” à sociedade branca. Essas crianças eram proibidas de falar suas línguas nativas e praticar sua cultura.
De repente, esse povo teve o seu território expropriado. E é claro que todos esses conflitos e acontecimentos deixaram marcas simbólicas e cicatrizes na paisagem e na comunidade local.
Esse contexto foi determinante para a concepção do projeto de TCC de Eduarda. A estudante considerou o potencial da arquitetura para a reconstrução e a cura de um lugar, ou melhor, como a arquitetura pode ser usada como instrumento de justiça social. Aliás, o termo “Tekoha” que aparece no título do seu trabalho significa, no Guarani, “o lugar onde se é o que se é”. Sendo assim, é um projeto que entende o terreno e usa uma nova edificação como agente de reconhecimento histórico.
A arquitetura, nesse caso, deixa de ser apenas infraestrutura cultural e passa a assumir uma função narrativa.

O desafio de projetar a partir de outra lógica cultural
A Capital Mundial das Etnias precisa realmente celebrar melhor a sua diversidade cultural para além da história dos fluxos migratórios europeus. Os povos originários merecem ser lembrados, mas não por uma arquitetura de contemplação, e sim por uma arquitetura de permanência. Eduarda previu um centro repleto de áreas ativas para reposicionar a presença indígena na paisagem cultural do município.
Abra sua mente e reflita sobre a proposta desse projeto!
Estamos falando sobre a arquitetura rio-grandense — tão presa ainda a referências rígidas do movimento moderno — reconstruir sua identidade. Talvez reaprender a se ver dentro dessa lógica ocidental, permitindo-se mergulhar na cultura negra e indígena para romper com a “caixa de vidro” e sair do convencional, criando espaços mais fluidos, respeitando os ciclos naturais e fugindo da padronização industrial.
A saber, o programa arquitetônico do complexo cultural projetado por Eduarda inclui diferentes tipologias espaciais voltadas à autonomia das comunidades indígenas, entre elas:
áreas destinadas ao cultivo agrícola
espaços para produção artesanal
ambientes para comercialização de produtos
setores voltados à educação cultural e transmissão de saberes

A colação de grau de Eduarda Berno Palharini ocorreu no dia 7 de março de 2026, marcando oficialmente o encerramento de sua formação acadêmica na Unijuí.
Desejamos a ela e a todos os novos arquitetos que possam trilhar uma jornada profissional de sucesso, sempre explorando a arquitetura como instrumento de diálogo cultural e transformação social. O futuro da arquitetura depende justamente de projetos que incorporam múltiplas leituras culturais, sociais e territoriais.
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem reprodução de TCC, acadêmica Eduarda Berno Palharini, via Unijuí






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