Por que as cidades brasileiras estão ficando feias?

Simplesmente aconteceu. Hoje, a arquitetura brasileira está refém do “caos planejado”. Nossas cidades crescem, muitas construções são erguidas diariamente, equipamentos urbanos instalados, áreas verdes plantadas, porém a paisagem não parece certa. Alguma coisa parece fora do lugar e não é apenas estética, mas estrutural.
É comum ouvirmos as pessoas dizerem que seu município está ficando feio. Esse debate precisa ser levantado não só aqui, no Portal Escala Humana, mas dentro dos escritórios e das instituições acadêmicas. Afinal, o que estamos fazendo de errado? Por que tantas capitais, apesar dos novos empreendimentos, vêm sofrendo com o empobrecimento visual e espacial do ambiente urbano? E será que há algo que o profissional de arquitetura possa fazer para mudar essa situação? Vamos conversar sobre isso!
A feiura como sintoma, não como causa
Muitos especialistas reduzem o que vem acontecendo no Brasil a um simples modismo ou até a uma suposta falta de ‘bom gosto’. Qual é a sua opinião?
Quem sabe não é o “pacote combo”? Talvez essa feiura urbana seja menos resultado de decisões pontuais e mais consequência de um sistema que favorece soluções “pobres”. No fim, em certos casos, por conta de tantas regras e falta de incentivo, engenheiros e arquitetos se rendem à insegurança e acabam propondo produtos previsíveis, como as casas-caixote.
Recentemente, nos chamou a atenção uma reportagem publicada no jornal O Povo que falava sobre a decadência visual de Porto Alegre, uma cidade planejada há mais de um século. Apesar da tradição técnica, sua arquitetura contemporânea pode ter se perdido em um normativo extenso — com mais de mil páginas regulando edificação, uso do solo e calçadas. Será falta de planejamento ou planejamento rígido em excesso, que paralisa a capacidade da própria cidade em responder de forma criativa às transformações sociais, econômicas e culturais?

Por exemplo, se um planejamento separa completamente o morar, o trabalhar e o consumir, o que acontece? Sim, acaba com a vitalidade das ruas — isolamento é igual a empobrecimento no urbanismo, certo? E esse problema pode ser comprovado em várias cidades brasileiras. É o tal caos planejado, um ambiente construído que não prioriza a beleza ou a funcionalidade social, mas o cumprimento de índices que tornam os projetos arquitetônicos quase sempre meros preenchimentos de gabarito.
A Arquitetura Brasileira está doente, vamos tratá-la
O que está acontecendo com as cidades brasileiras? O que mais vemos são fachadas inexpressivas, terraços hostis, calçadas interrompidas e espaços públicos sem qualquer continuidade, uso ou sequer sentido. Parece um somatório de objetos autônomos, como se tivessem sido enxertados no tecido urbano. Estamos quase perdendo a cruz ou avião do Plano Piloto de Brasília.
Não se tem mais processos imobiliários que permitam a livre criatividade dos arquitetos, assim como aconteceu no tempo do COPAN, Conjunto Nacional ou Galeria do Rock. Esses prédios qualificaram a paisagem urbana e ainda foram financeiramente bem-sucedidos. Será que não voltaremos a ter outra chance assim?

Sabe quem parece que morreu? O arquiteto-incorporador, que tomava decisões mais ousadas e pensadas de forma integrada. E sabe do que ele morreu? Do privilégio que o mercado passou a dar à repetição, à padronização e às soluções juridicamente seguras — ainda que espacialmente pobres. Fato é que, diante de tantas imposições restritivas, muitos arquitetos preferem se colocar na defensiva, desenhando propostas que teoricamente não vão dar problemas e garantindo o lucro. Isso é errado? Não.
O descaso da administração pública
Nossas cidades estão fragmentadas, violentas e socialmente empobrecidas. A maioria dos espaços coletivos deixou de ser ponto de encontro para se tornar área de passagem. Por todo lado vemos construções desconectadas do entorno, muros altos, cercas elétricas, guaritas, fachadas cegas, passeios quebrados, vias esburacadas, árvores sem manejo e fiação aérea frágil e desordenada. Essa é a arquitetura da insegurança e do abandono. E foi esse o projeto que engenheiros e arquitetos brasileiros almejaram? Evidentemente, não.
Trata-se de um improviso crônico adotado por muitos gestores públicos. Essa desorganização visual, naturalmente, afeta de forma direta a leitura da paisagem urbana. No conjunto, são elementos que compõem cidades e que transmitem negligência — mesmo quando os recursos financeiros não são escassos.
O que a arquitetura pode fazer
A arquitetura, por si só, não é capaz de solucionar problemas estruturais das cidades, mas exerce um papel central na reversão de determinados cenários. Soluções simples podem ter um impacto profundo na experiência urbana — como no comportamento, apropriação e senso de pertencimento dos cidadãos. Então não se trata de dinheiro, mas de intenção.

Algumas ações essenciais nesse processo incluem:
Projetar para o pedestre, qualificando térreos, fachadas e o espaço público imediato.
Trabalhar com o existente, entendendo a cidade como um conjunto de camadas, e não como uma folha em branco.
Resgatar o valor simbólico da arquitetura, mesmo em obras cotidianas.
Atuar politicamente, participando de decisões urbanas e da formulação de políticas públicas.
Defender legislações mais flexíveis, que favoreçam uso misto, densidade e diversidade urbana.
Recolocar o projeto no centro do mercado imobiliário, tratando arquitetura de qualidade como valor, não como custo.
Se a vida é feita de escolhas, que escolhamos transformar a arquitetura brasileira — para que ela deixe de ser apenas uma resposta técnica e volte a se afirmar como um verdadeiro projeto de cidade.
Fontes:
Imagem de capa:
Skyline de Porto Alegre - Imagem de Adreson Commonswiki em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Geografia_de_Porto_Alegre#/media/Ficheiro:Porto_Alegre_skyline.jpg





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