Kit premiado da USP pode mudar a forma como arquitetos pensam o paisagismo

Arquitetos experientes estão acostumados a lidar com a escala humana, projetos complexos e softwares avançados de modelagem. Porém, até esses profissionais podem encontrar alguma dificuldade na hora de desenvolver uma ideia nova ou explicar um conceito em sala de aula sem auxílio de ferramentas simples e didáticas, além de métodos mais táteis, colaborativos e exploratórios. Imagine se a tarefa fosse elaborar uma proposta para a criação de um sistema florestal ou agroflorestal, integrando espécies naturais a áreas de propriedades rurais.
Agroflorestas são sistemas produtivos cuidadosamente elaborados para imitar os processos naturais de uma floresta, visando criar um ecossistema mais sustentável, produtivo e resiliente. Juntamente com o paisagismo e o urbanismo, isso ajuda a recuperar solos e a economizar água. Os benefícios ambientais e econômicos são inúmeros, e é justamente isso que é ensinado em escolas técnicas e universidades.

Recentemente, foi desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), um kit elaborador de sistemas agroflorestais: o Kesaf. Curiosamente, o protótipo nasceu na Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (FAU). Contudo, ele não foi necessariamente concebido para ser usado apenas em escritórios de arquitetura. Na verdade, a proposta é democratizar o planejamento de sistemas agroflorestais — uma decisão geralmente tomada por especialistas e que agora pode ser mais participativa e acessível.
Quando o projeto deixa de ser objeto e passa a ser processo
Quando pensamos sobre o significado do paisagismo, é errado dizer que os projetos de jardins são simplesmente molduras estáticas para as obras de arquitetura. Há muito tempo esse paradigma mudou. Hoje a arquitetura deve ser trabalhada não apenas para ocupar espaços, mas para regenerar vidas. E é por isso que o arquiteto urbanista precisa se importar com sistemas agroflorestais. Afinal, o tratamento de paisagem não pode ser pensado só para o agora ou para a entrega da obra, mas em como será quando o jardim já estiver adulto.
É nesse momento que uma inovação como o Kesaf se mostra necessária. Esse não é um material pensado só para agricultores, mas como ferramenta de exercício mental, conceitual e até metodológico de alta complexidade que pode elevar o nível do planejamento de paisagismo e urbanismo.
Suas peças levam o projetista a pensar em quatro dimensões e a imaginar o desenvolvimento do sistema desde o plantio das espécies até o quinto ano de manejo. Assim é possível entender como as copas das árvores podem afetar a insolação das espécies inferiores, como a biomassa de uma planta pode ajudar a preparar o terreno para uma próxima fase do projeto, e como deve funcionar a estética da proposta junto das funções ecossistêmicas.
Resumindo, o Kesaf obriga o arquiteto a lidar com interdependências. Aliás, essa lógica sistêmica é próxima daquilo que muitos bons profissionais já buscam ao projetar parques, áreas de lazer, corredores verdes, praças drenantes ou projetos de infraestrutura verde.
Novas formas de pensar tempo, ecologia e projeto arquitetônico
Com o desenvolvimento de novas tecnologias, a arquitetura passou a conviver com um excesso de digitalização que tem afastado os projetistas da compreensão sensível dos sistemas naturais. O kit desenvolvido na USP serve como um convite para os profissionais abandonarem a lógica puramente formal e incorporarem variáveis como sucessão, manejo, adaptação e transformação ao longo do tempo. Ou seja, trata-se de um dispositivo pedagógico para o raciocínio projetual.
Em vez de se fixar em renderizações estáticas em 3D, que muitas vezes omitem a evolução biológica, o arquiteto pode estudar junto aos seus clientes e compreender o 'tempo da natureza'. É possível que, nesse exercício, o kit revele um potencial inesperado para a intersecção perfeita entre estética do design e funcionalidade social e ambiental. Tudo isso estaria alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e às competências exigidas para certificações como LEED ou AQUA-HQE.
A tradução de dinâmicas ecológicas em maquetes
O kit Kesaf é composto por 300 peças em MDF cortadas a laser. Sobre uma base, elas podem ser organizadas para representar diferentes culturas agrícolas e espécies arbóreas. A maquete tridimensional simula composições e contribui para a visualização do desenvolvimento de um sistema ao longo dos anos, incluindo o crescimento e as relações entre elementos vivos. O objetivo é estimular as pessoas a pensarem o paisagismo como agrupamentos em evolução, não como composição finalizada.


A saber, o kit elaborador de sistemas agroflorestais da FAU-USP foi premiado em 2025 no Design for a Better World (DFBW) Award, realizado pelo Centro Brasil Design (CBD).
Passo a passo para aplicar a lógica do Kesaf
Comece pelo físico: use maquetes e elementos táteis para estimular o pensamento espacial e o debate coletivo.
Pense em camadas: organize o projeto por estratos e funções ecológicas, classificando as espécies pela função solar, produtiva e ecológica.
Teste e ajuste: permita erros, rearranjos e visualização imediata.
Trabalhe coletivamente: estimule discussão e cocriação com equipes multidisciplinares.
Projete no tempo: considere crescimento, sucessão das espécies e longevidade, variáveis que devem empatar na transformação do espaço.

Nesse processo, o arquiteto deve trabalhar como mediador entre técnica e sociedade. Sua tarefa é explorar o kit elaborador de sistemas agroflorestais para aproximar o conhecimento apreendido na academia com a realidade das pessoas. Também a sua função é traduzir normas, dados técnicos e condicionantes ambientais de modo compreensível.
No início, ainda na fase de discussão conceitual, o Kesaf pode ser usado como um espelho crítico das ideias e como gatilho metodológico. A maquete permite testar rapidamente densidade, relações espaciais e falhas de espaçamento de forma clara e visual. Nesse momento, vale envolver especialistas em flora nativa, ciclos naturais e saberes tradicionais, capazes de orientar soluções mais resilientes e duráveis. Superada essa etapa, o projeto de paisagismo pode avançar para o detalhamento, retomando então as ferramentas digitais, como os softwares de Modelagem da Informação da Construção (BIM).
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem de Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, SP, via Jornal USP






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