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Patrimônio Histórico é crise ou oportunidade? Santa Tereza e Santa Maria apontam um novo caminho para o RS

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

O tema ‘patrimônio histórico’ é bastante recorrente em rodas de conversas dentro das universidades gaúchas. Mas, se o Rio Grande do Sul quiser mostrar resiliência urbana, precisa tirar essa discussão da sala de aula e levá-la para a prática da arquitetura no estado. Não se pode resumir a preservação a “tombar, restringir, impedir e fiscalizar”, pois isso faz a questão parecer um mero problema administrativo, um entrave econômico ou uma camada burocrática a ser superada.



Prefeitura Municipal de Santa Tereza - Imagem de Guidrums em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Tereza#/media/Ficheiro:Prefeitura_de_Sta_Tereza.JPG
Prefeitura Municipal de Santa Tereza - Imagem de Guidrums em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Tereza#/media/Ficheiro:Prefeitura_de_Sta_Tereza.JPG

Pelo contrário, precisamos convencer a sociedade a lutar, junto aos arquitetos, para manter nossa história de pé. Vivemos tempos de intensas vulnerabilidades climática e financeira, além de fortes pressões legislativas. No entanto, esses movimentos reforçam a ideia de que preservar o patrimônio é algo vantajoso, transformando Santa Tereza e Santa Maria em laboratórios vivos de estratégias arquitetônicas.


Lembre-se de que o patrimônio não pode ser apenas um objeto de contemplação histórica, e deve funcionar como uma infraestrutura cultural viva.


Santa Tereza e a democratização da ATHIS


O caso de Santa Tereza, na Serra Gaúcha, promete ser emblemático. A cidade, que recentemente foi muito atingida por cheias severas, está desenvolvendo um projeto-piloto de restauro via Escritório Público de Assistência Técnica. Com apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o plano foca na aplicação da Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS) ao patrimônio cultural. 


Hoje um dos maiores gargalos da preservação do patrimônio histórico é o elevado custo da consultoria especializada — e, como bem sabemos, não existe preservação adequada sem assistência técnica. Afinal, como os moradores podem entender o que precisa ser tombado e as implicações disso no núcleo urbano sem a devida orientação? Mas e se houvesse um atendimento de arquitetura oferecido gratuitamente? Isso poderia garantir a reconstrução ideal, com segurança e sem comprometer a qualidade de vida da população.


A propósito, hoje já existem profissionais selecionados por edital atuando em campo, realizando vistorias de risco, laudos estruturais e projetos de intervenção para moradores do núcleo tombado.



Santa Tereza - Imagem de IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico - http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/395/
Santa Tereza - Imagem de IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico - http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/395/

O patrimônio como infraestrutura social


É interessante como a ATHIS sempre esteve associada à regularização fundiária, à habitação precária ou a melhorias habitacionais periféricas. Mas, no caso de Santa Tereza, a proposta é enxergar esse modelo de assistência aplicado ao patrimônio histórico, reconhecendo que moradores de áreas tombadas também merecem suporte técnico acessível. Esta é uma ação que pode ser decisiva para cidades pequenas, como as do interior gaúcho.


Infelizmente, hoje, muitos proprietários de imóveis protegidos temem o tombamento. Seria fundamental que o poder público fizesse deste ato um gesto de valorização, ensinando que patrimônio é, antes de tudo, memória afetiva. O desafio é impedir o abandono dessas edificações pela incapacidade financeira de restaurá-las, ou evitar as reformas improvisadas que descaracterizam o conjunto urbano. Nesse cenário, a tarefa dos arquitetos é liderar o desenvolvimento de projetos de intervenção.


Reconstruir com critério técnico, segurança e coerência arquitetônica.

Afinal, não queremos cidades degradadas ou congeladas na paisagem. A arquitetura precisa ser adaptável e sua preservação economicamente viável. O patrimônio histórico deve ser considerado parte da vida urbana, não um luxo dissociado da realidade. E a assistência técnica pode provar que isso é possível.



Santa Maria e o mapeamento de memórias


O projeto de Santa Maria começa a ser aplicado ainda antes do canteiro de obras. O ‘Mapeando Memórias’ foi desenvolvido pela Universidade Franciscana (UFN) com apoio do CAU/RS. Trata-se de uma resposta direta à nova legislação de uso e ocupação do solo do município que, segundo a opinião de especialistas, teria fragilizado a proteção da "Zona 2 – Centro Histórico", desobrigando a avaliação do Conselho Municipal de Patrimônio (COMPHIC-SM) para intervenções em edifícios não tombados.




A proposta é esclarecer de vez o que é patrimônio e reconstruir narrativas urbanas, usando como exemplo o Museu Franciscano e a antiga Estação Férrea de Santa Maria. Ambas as construções foram escaneadas a laser, registradas em fotogrametria e representadas em realidade virtual. Assim sendo, as novas tecnologias poderiam contribuir para gerar ambientes virtuais interativos, conexão emocional e pertencimento.



Gare da Viação Férrea - Imagem reprodução de Prefeitura Municipal de Santa Maria - https://www.santamaria.rs.gov.br/cultura/552-gare-da-viacao-ferrea
Gare da Viação Férrea - Imagem reprodução de Prefeitura Municipal de Santa Maria - https://www.santamaria.rs.gov.br/cultura/552-gare-da-viacao-ferrea


A dimensão política do mapeamento 3D


Você pode estar se perguntando como apresentar modelos em 3D à população pode ajudar na preservação do patrimônio. Bem, tudo começa pela educação. Digamos que a arquitetura histórica que não gera conexão pública tende a perder legitimidade política. Se ela não produz experiência, perde espaço para a lógica acelerada da especulação imobiliária.


O mapeamento do patrimônio histórico — por meio da captura da realidade (Matterport) — pode funcionar, além de instrumento educativo, como uma documentação estratégica de um acervo urbano potencialmente vulnerável, um inventário dinâmico, uma forma de produção de memória coletiva e uma ferramenta de denúncia. Ou seja, registrar passa a ser uma forma de resistência.


A virtualização não substitui o edifício, mas cria uma "casca de proteção" social ao ampliar o acesso e o conhecimento sobre o bem.


Lições desses dois municípios gaúchos


O Rio Grande do Sul ainda tem uma das maiores riquezas arquitetônicas do país, mas a gestão desse acervo ainda é muito reativa. Outros municípios podem tomar Santa Tereza e Santa Maria como exemplos de como tratar o patrimônio histórico, inclusive como um conjunto potencial para novos usos e significados.



Prefeitura Municipal de Santa Maria - Imagem reprodução de Prefeitura Municipal de Santa Maria - https://www.santamaria.rs.gov.br/cultura/1541-museu-franciscano
Prefeitura Municipal de Santa Maria - Imagem reprodução de Prefeitura Municipal de Santa Maria - https://www.santamaria.rs.gov.br/cultura/1541-museu-franciscano

Esses casos provam que o tombamento legal não é o suficiente para o cuidado do patrimônio histórico. É preciso investir em mediação técnica, participação social, educação patrimonial, comunicação digital, documentação tecnológica e novas formas de ativação urbana.


Novas tecnologias + novas pedagogias urbanas + novos modelos de assistência pública.


Para finalizar, o arquiteto precisa entender que sua missão vai além de ‘desenhar o novo’; reside na capacidade de ler o que já existe e aplicar técnicas e tecnologias para salvaguardar as construções. Mais do que isso, o profissional deve agir como um mediador cultural, um articulador urbano e um agente de permanência territorial.



Fontes:


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