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Guerra no Irã: O que a arquitetura mundial perde com a destruição do patrimônio persa?

  • Foto do escritor: Redação Portal Escala Humana
    Redação Portal Escala Humana
  • 7 de mar.
  • 4 min de leitura

O mundo começou em 2026 com mais uma guerra: Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os três países possuem uma cultura valorosa. Mas neste artigo, do Portal Escala Humana, gostaríamos de destacar a ameaça que esse conflito representa para a cultura persa. A arquitetura iraniana é uma das mais esplêndidas, antigas e sofisticadas do mundo — fonte de inspiração para inúmeros projetistas — e já sofreu perdas. Infelizmente, é provável que essa destruição seja apenas um de muitos capítulos tristes da nossa história.


É lamentável como a guerra vai além de mapas, geopolíticas e estratégias militares. Ela ceifa vidas, compromete sistemas de infraestrutura e atinge cidades históricas, destruindo memórias construtivas.


O palácio atingido durante a guerra no Irã


Ainda no começo de março, o Palácio Golestan, localizado no coração de Teerã, foi atingido por bombardeios americanos. Janelas ficaram estilhaçadas, espelhos partidos e paredes externas danificadas pela onda de choque de ataques aéreos. Esse foi o primeiro golpe visível que a arquitetura levou em meio ao escalonamento bélico da guerra no Irã. Diante disso, a Unesco já alertou para a vulnerabilidade de sítios culturais na região, como a Mesquita Shah em Isfahan.


A saber, o Palácio de Golestan é um importante complexo arquitetônico do Irã, composto por edifícios históricos interligados por jardins. Em resumo, ele representa uma síntese entre tradição persa e influências ocidentais. Grande parte das construções no local foi erguida durante a dinastia Qajar, entre o final do século XVIII e o início do século XIX. O conjunto reúne museus, pavilhões e palácios ornamentais. 


Aliás, este palácio já havia perdido parte de suas estruturas na década de 1920 para modernizações. Agora sua existência é ameaçada pela guerra no Irã. 




Arquitetos familiarizados com restaurações complexas compreendem bem o risco. Imagine que só em Golestan há uma enorme concentração de conhecimento construtivo, técnicas artesanais (como composições de mosaicos de azulejos e vitrais coloridos) e linguagens formais que dificilmente podem ser reproduzidas após a sua perda.




Mas, em tempos de guerra, como proteger o patrimônio cultural? Será que a história arquitetônica da humanidade corre o risco de desaparecer em meio a um conflito global? Resta torcer para que isso nunca aconteça.


Obras que contam a história da arquitetura iraniana


O valor da arquitetura iraniana pode ser testemunhado em cidades inteiras, casas tradicionais, mesquitas, pontes e estruturas urbanas. Existe uma relação surpreendente entre materialidade, clima e cultura que desperta o interesse acadêmico e profissional.


Em muitas construções modernas e antigas espalhadas pela nação, a própria estrutura se transforma em linguagem estética. Várias dessas obras são feitas de tijolos de adobe, com camadas expostas para que fazem parte da experiência espacial, valorizando a beleza do design.



Pátio da Mesquita de Ardestan - Imagem de Moe Alian em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Arquitetura_iraniana#/media/Ficheiro:Ardestan_Jame_mosque.jpg
Pátio da Mesquita de Ardestan - Imagem de Moe Alian em Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Arquitetura_iraniana#/media/Ficheiro:Ardestan_Jame_mosque.jpg

Outro elemento marcante é o uso intensivo da geometria, como é o caso de muitos arcos em entradas de mesquitas. Por fim, os revestimentos em adobe ou gesso esculpido criam paredes que lembram a paisagem desértica e mantêm temperaturas amenas nos interiores – uma lição sustentável para projetos contemporâneos em climas quentes como o do Brasil.


Por sorte, apesar de conflitos bélicos, invasões e regimes opressores, muitos monumentos da arquitetura resistiram ao tempo. Porém, agora, na guerra no Irã, são alvos potenciais por proximidade a infraestruturas militares, como é o cado das ruínas do Império Aquemênida ou a Necrópole de Naqsh-e Rustam.



Necrópole de Naqsh-e Rustam - Imagem de Maasaak em Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Naqsh-e_Rostam#/media/File:Naqsh-e_Rustam_necropolis_in_Iran.jpg
Necrópole de Naqsh-e Rustam - Imagem de Maasaak em Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Naqsh-e_Rostam#/media/File:Naqsh-e_Rustam_necropolis_in_Iran.jpg


Também vale a sua admiração a arquitetura da Mesquita Shah e da Ponte Khaju, que atravessa o rio Zayanderud, em Isfahan; da Mesquita Nasir ol-Molk (a famosa Mesquita Rosa) e da Casa Qavam, em Shiraz; além do sítio arqueológico de Persépolis, onde repousam as grandiosas ruínas do antigo Império Persa.


Tudo isso e mais é o que a arquitetura mundial pode perder. 



Guerras significam destruição física e também interrupção de processos culturais que levaram séculos para se formar. E se o conflito perdurar, pode ultrapassar fronteiras nacionais. 




A tensão entre tradição e modernidade

Mesmo antes dos conflitos de 2025 e 2026, a arquitetura iraniana já sofria ataques significativos. 


Fato é que, nas últimas décadas, muitos edifícios históricos foram demolidos para dar lugar a construções mais ocidentalizadas. Designers até tentam reinterpretar em contemporâneas a herança arquitetônica, com o uso de módulos de argila em padrões geométricos, tijolos ecológicos, e mais — a exemplo do que se vê nas obras de Tachra Design, Saba Office Studio e CAAT Studio. Mas a preservação do patrimônio está fragilizada. 


Esse processo de transformação urbana vem comprometendo a tradição vernacular de várias cidades. E é justamente o conjunto histórico ainda preservado que corre risco com a guerra no Irã.


A cada monumento destruído, perde-se uma referência simbólica construída por gerações de profissionais, apaga-se um fragmento da história humana e, junto com ele, parte da nossa esperança de paz.




Fontes:


Imagem de capa:

Mesquita Nasir - Imagem de Matt Biddulph em Wikipédia -


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