Morar junto é o novo morar bem? Como a moradia compartilhada está redesenhando a arquitetura das cidades

Um dos maiores sonhos compartilhados no imaginário coletivo do brasileiro era a aquisição da casa própria. Sair da casa dos pais, comprar ou alugar um imóvel — preferencialmente sem dividir — era uma ideia de conquista individual. Mas, por conta das transformações culturais, econômicas e urbanas, tudo mudou.
Dados recentes revelados em pesquisas realizadas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre mostram que a Geração Z — jovens nascidos a partir de 1997 — está mais aberta a dividir a casa com pessoas fora do núcleo familiar. A moradia compartilhada deixou de ser uma solução provisória e passou a configurar um modelo habitacional com implicações diretas no projeto arquitetônico e no desenho das cidades.

O novo mercado imobiliário e o redesenho da arquitetura
Enquanto a geração dos millennials considerava a importância da escolha da moradia como símbolo de status (ativo patrimonial), os jovens de hoje estão mais preocupados com a infraestrutura de vida (residência como um serviço fluido e compartilhado). Essa inversão de valores está redefinindo o significado de morar e gerando consequências sobre o trabalho de arquitetos, incorporadoras e urbanistas, que precisam agora repensar cuidadosamente conceitos de tipologias, programas e hierarquias espaciais.
Agora existem outras demandas: flexibilidade, adaptabilidade, convivência e eficiência no uso do espaço. Com um metro quadrado cada vez mais caro nas capitais brasileiras, a unidade privada tende a reduzir, enquanto as áreas comuns ganham protagonismo funcional e simbólico. Surge o coliving, uma versão sofisticada do que antes era visto como “república de estudantes”. O desafio é equilibrar a “microprivacidade” com a “macroconvivência”.

Coliving na prática
Vale explicar melhor como funciona o conceito de coliving. Nesse modelo, o imóvel geralmente é gerido por uma empresa e há uma maior rotatividade de moradores. Por isso, o formato da planta precisa permitir fácil mudança de layout ou modulação, bem como alterações de instalações, mobiliário e até revestimentos. Quartos privativos coexistem com cozinhas coletivas, salas de estar, coworkings e áreas de lazer. Inclusive, o uso intensivo das áreas comuns demanda durabilidade e fácil manutenção.

Chamamos atenção para o fato de que agora as áreas comuns deixam de ser complemento e viram programa central nos projetos de arquitetura residencial. Itens como piscinas, academias e outros espaços multiuso tornam-se extensões diretas da moradia. Espaços que permitem que a pessoa trabalhe em casa, possa concentrar suas atividades domésticas e ainda estimular encontros espontâneos são mais valorizados. E os condomínios devem operar como microbairros, ativos em diferentes horários e escalas de uso.

Na hora de traçar o partido arquitetônico, os investidores colocam como prioridade a experiência do usuário. Mas mesmo que o fator econômico seja o principal motivador, a sustentabilidade se consolida como consequência natural do processo. Há uma preocupação com o compartilhamento de recursos — como energia, água, eletrodomésticos e ferramentas — para que haja uma redução do impacto ambiental por habitante. E para o arquiteto, isso significa pensar em sistemas prediais centralizados mais eficientes e em uma economia circular dentro do próprio condomínio.

O urbanismo tático e a cidade colaborativa
Nos últimos anos, houve uma normalização do trabalho remoto. Milhões de brasileiros passaram a trabalhar em casa, alterando a lógica dos ambientes residenciais. Hoje, muitos empreendimentos oferecem moradias que incorporam funções produtivas, com o máximo de conforto, conectividade e espaços adequados para longas permanências. E essa mentalidade coletiva da Geração Z está “transbordando” para as calçadas. Isso significa que o urbanismo também precisa responder com infraestruturas que sejam extensões dos apartamentos compactos.

Esta nova arquitetura, em tese, passa a atuar como mediadora das relações sociais, criando condições para interações mais próximas. Seus detalhes contribuem para estimular encontros e fortalecer o sentimento de pertencimento — um ponto especialmente relevante diante de estudos que indicam o isolamento social como um problema crescente, com efeitos diretos sobre a saúde física e mental. Esse cenário recoloca o arquiteto no centro de uma discussão sobre forma e função, trazendo à tona a responsabilidade social inerente ao projeto.
Porto Alegre como retrato de uma pressão urbana maior
Porto Alegre, assim como outras capitais brasileiras — a exemplo de Florianópolis —, é uma cidade que viu seu custo do metro quadrado e aluguel crescerem de forma acelerada nos últimos anos. Agora a moradia compartilhada surge como uma saída para manter a densidade populacional jovem. Bairros como Bom Fim, Cidade Baixa e Menino Deus ilustram esse fenômeno de transformação urbana. Bem localizados e com infraestrutura consolidada, já são usados como laboratórios vivos de arquitetura.
Em outras cidades gaúchas, podemos encontrar empreendimentos que concentram múltiplos usos dentro do próprio condomínio: espaços de escritório, estúdios de podcast, áreas de descompressão e saúde mental, armários inteligentes, lavanderias coletivas e mercados autônomos integrados ao hall. Essa lógica também impacta o urbanismo. Afinal, quanto mais funções um edifício absorve, menor a dependência do entorno imediato. A partir daí, podemos questionar como fica a relação dessas novas arquiteturas com o espaço público e sua integração com a cidade existente.
Um novo jeito de morar exige um novo jeito de projetar
A Geração Z vem redefinindo os parâmetros do projeto residencial contemporâneo. Isso está impulsionando o surgimento de novos modelos de moradia compartilhada. Ainda não temos como prever se essa tendência é passageira. Contudo, alguns especialistas apostam na tematização e na expansão. Por exemplo, colivings voltados a artistas, nômades digitais ou ao público sênior, interessado em combater a solidão da terceira idade através do convívio intergeracional.
Para finalizar, a tecnologia tende a se consolidar como aliada indispensável da arquitetura, com aplicativos de gestão, fechaduras biométricas e sistemas de automação, assumindo o papel central no uso e no controle das áreas comuns.
Fontes:
Imagem de capa:
Imagem meramente ilustrativa gerada em IA de Google Gemini






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