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Necessitamos de arte, não crenças.

A arte como sistema de linguagem e não mais de vivência

Paulo Leônidas

Arquiteto e Urbanista, Roteirista e Diretor de Arte 

Um dos chavões da história da arte é que jamais devemos tentar escrever a história do passado recente. A razão dada é que provavelmente seremos tendenciosos.

Evidentemente é preciso ter cautela ao se lidar com desenvolvimentos que são contemporâneos a nós, mas é ingênuo imaginar que um consenso aceitável surgirá espontaneamente. Se o historiador recua, o propagandista entra em cena e ataca furiosamente, em geral com uma versão polêmica do que é mais “evidente”.

É melhor não nos basearmos nos “ismos”, uma vez que estes não fazem distinção entre as criações duradouras e os primos mais fracos que simplesmente vestem a roupa da moda.

Não esqueçamos que ver precede as palavras.

Na sociedade em que vivemos, a maneira como vemos as coisas é afetada acentuadamente pelo que sabemos ou pelo que acreditamos. Na era da reprodução pictórica, o significado das pinturas, por exemplo, não está mais a elas vinculado. As obras de arte hoje em dia são frequentemente envoltas de palavras.

É difícil definir exatamente como as palavras modificaram a imagem, mas é indubitável que elas o fizeram. Agora, é a imagem que ilustra a frase.

A arte sempre é contemporânea do ponto de vista filosófico

A arte dita ”Contemporânea”, esvaziada ideologicamente de talento e originalidade, se transformou em uma crença.  A arte “Contemporânea” é de alguma forma herdeira das ideias oriundas dos cânones do “Ready Made” de Marcel Duchamp.

Vivemos hoje sem dúvida um novo ciclo do ”neocolonialismo euro-centrista” estético caracterizado dominantemente por uma arte que se caracteriza por uma produção evidentemente maneirista.

A arte “Contemporânea” é definitivamente um estilo, que impõe.....

Conforme este estilo tudo o que o artista elege e designa converte-se em arte. A arte fica reduzida a uma crença fantasiosa e a sua presença a um significado. Essa forma de pensamento permite que qualquer pessoa seja considerada um artista e que qualquer objeto possa ser uma obra de arte.

Qualquer objeto se transforma em arte através de um fenômeno de linguagem, centrado na conceituação da obra, no significado, na intenção do artista, no discurso curatorial, no contexto e em última análise, num exercício retórico. Um estilo que precisa de um intermediário que explique a “obra de arte” e que elimina a ideia de gênio artístico para que assim todos possam ser artistas.

Para exemplificar esta constatação deste ”neocolonialismo euro-centrista” e da retórica na arte, lembramos recentemente a exposição “A Fonte de Duchamp” realizada em Porto Alegre este ano, num espaço nobre e com enorme divulgação, comemorando os 100 anos da famosa Fonte de Marcel Duchamp (1887-1968), que se constituía nada mais do que um simples mictório de porcelana, transformado em obra de arte ao ser girado de posição, assinada obviamente pelo autor da iniciativa, e apresentada para uma exposição.

Desde lá esta “obra” então tornou-se uma espécie de Santo Graal do estilo “Contemporâneo”  com sua retórica do  desprezo “endêmico” pela beleza e pelo talento. E por coincidência, como o Santo Graal, a Fonte jamais foi vista pelo público, pois nunca foi exibida e desapareceu logo depois de sua criação. O que temos hoje é uma única foto do original e muitas réplicas!

O mais interessante é que neste mesmo ano de 1917 no Brasil acontecia um dos fatos mais marcantes para a arte brasileira e não tem merecido comentários, críticas e muito menos uma exposição num salão nobre de um grande museu. Mais uma vez o “neocolonialismo euro-centrista” professado pelos crentes da intelectualidade dominante brasileira continua fazendo vítimas, no caso a artista Anita Malfatti.

É consensual, entre os historiadores, que o marco inicial do movimento moderno no Brasil aconteceu em São Paulo, em dezembro de 1917: a exposição de pinturas de Anita Malfatti (1896-1964). A jovem artista não pretendia com suas telas de caráter fauve, inaugurar nenhum movimento, mas a reação negativa, sobretudo a do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), provocada pelas suas pinturas sem nenhuma relação com o academicismo e o naturalismo vigentes, chamou a atenção de jovens intelectuais que se solidarizaram com a pintora. Articulava-se o primeiro grupo modernista brasileiro.

Mas o esquecimento de um fato tão importante na historia da arte brasileira não é por acaso.

Vivemos no Brasil uma arte “Contemporânea” que é construída por vários atores que legitimam um sistema carente de talento e proposta, que nitidamente rechaça a historia de um povo. Não há obras para se falar mas sim se fala de “teorias”, pois as obras são apenas “objetos carregados de slogans”, e que preferem se concentrar na retórica e estritamente no “impacto” que produzem estas obras.

Neste sistema retórico, qualquer coisa é “arte”.

Como diz o filósofo Michel Onfray em seu livro “A Força de Existir“: “As galerias de arte contemporânea exibem com complacência as taras de nossa época”. A arte “contemporânea”, de maneira geral, manifesta e reforça um aspecto doentio de nossa época e como tal significa um retrocesso na inteligência humana. O desprezo endêmico que tem pela beleza, a perseguição que realiza contra o talento, o menosprezo pelas técnicas e pelo trabalho manual, pelo passado, está reduzindo a arte a uma deficiência inimaginável de nossa civilização.

As obras de arte do estilo “Contemporâneo” se converteram numa imensa rapsódia de teorias e substantivos, um sistema de arte convertido numa sucursal eficiente e estratégica da produção capitalista, una maquinaria industrial que consome a vitalidade criativa e a capacidade social da imaginação, um sistema narcisista que se nutre dos ânimos “subversivos” dos jovens e dos recém chegados (a fonte de sua eterna juventude) assim como da crítica auto referencial de seus produtos fantasmáticos.

Existe uma divisão bem clara realizada pela Academia e os teóricos da arte “Contemporânea” do que é este estilo. Estes chamaram arte “Contemporânea” as manifestações que respondem diretamente as denominadas ferramentas de nosso tempo e neste sentido assim englobaram Vídeo, a Instalação e a Performance, designada a partir de agora em diante por mim como arte VIP. E por incrível que possa parecer deixaram de fora da “contemporaneidade” artistas que estão trabalhando agora, pintando, esculpindo e que podemos analisar com valores reais. A partir disto constatamos que a arte “Contemporânea” está promovendo uma grande ilusão artística e ao meu ver, algo muito pior ainda, uma grande ilusão ideológica.

Percebe-se depois de todos  estes anos deste “estilo” de arte, profetizado como libertário, é que ele é endogâmico, elitista, com vocação segregacionista, realizado por uma estrutura burocrática, apoiado pelas instituições e patrocinadores. Sua obsessão pedagógica, sua necessidade de explicar cada obra, cada exposição, sua  produção de textos, torna explícita a imposição de critérios, a negação da experiência estética livre, define, sem dúvida, a intelectualização da obra para sobrevalorizá-la e para impedir que a percepção seja exercida com naturalidade.

Neste estilo da arte a criação é livre, mas a  contemplação não é.

A arte “Contemporânea” foi criada em países industrializados ocidentais onde uma visão de mundo progressista floresceu temporariamente e onde grupos de vanguarda tentaram produzir um estilo moderno autêntico apropriado às condições sociais que mudavam rapidamente.

Este padrão curioso teve seus resultados copiados em todo mundo e frequentemente aplicados de maneira errônea. Além disso, somente a partir da década de 40 as formas ”contemporâneas” tiveram algum impacto significativo nos países menos desenvolvidos e estas formas geralmente careceram da poesia e da profundidade de significado das obras – primas do movimento da arte “contemporânea”.

A disseminação dessa versão degradada do projeto “contemporâneo” ocorreu de várias formas: através da colonização contínua, sendo neste caso imagens da “contemporaneidade”, que funcionavam como emblemas do controle estrangeiro econômico ou político; através da lavagem cerebral de elites “pós-colonial” com imagens e ideias eurocêntricas que eram defendidas como “ forças progressistas” opostas a uma era mais antiga de “atraso e estagnação’.

As novas classes arrivistas pareciam querer se desassociar do peso de sua história recente e experimentar nada menos do que as “liberdades” consumistas do Ocidente.

A ironia é que tantos países, finalmente livres do domínio colonial ostensivo, tenham sido tão facilmente persuadidos a adotar versões vulgares e seus clichês padronizados  da arte “Contemporânea”  ocidental.

Entendo que num mundo, infelizmente tão globalizado, o que ser faz necessário é uma mistura do local e do universal, que evite as limitações de cada um e que leve a formas de ressonância simbólica duradoura. A crença do estilo  “Contemporâneo”, superficial e degradado e o tradicionalismo impulsivo são males a serem evitados em todo lugar do mundo.

Como o autor John Berger no seu livro “Ways of seeing” nos diz “A História está sempre a constituir a relação entre um presente e seu passado. Consequentemente, o medo do presente conduz à mistificação do passado. O passado não é para viver nele; trata-se, na verdade, de um poço de conclusões, dele extraídas, para nosso intuito de agir.”

Um povo afastado de seu próprio passado está muito menos livre para escolher e agir como um povo do que aqueles capazes de situar-se na História. Eis por que e esta é a única razão, a arte inteira do passado tornou-se hoje uma questão política.

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Paulo Leônidas

Paulo Leônidas é arquiteto e urbanista formado pela UFRGS, com mestrado pela UFRGS e pela AA School of Architecture (Reino Unido). Atua de forma multidisciplinar como arquiteto, cenógrafo, diretor de arte, roteirista e produtor executivo, além de ser autor de livros, artigos acadêmicos e curador de exposições. Sua trajetória combina prática profissional e atuação institucional, com passagem pela docência na UFRGS e participação em conselhos de cultura em nível estadual e nacional.

No audiovisual, assina roteiros e argumentos de longas e séries premiados, como Cinco frações de uma quase história, Terra de Inquietos e Colecionadores, além de produções recentes como Il Mago dei colori, Aba Larga e A tacada perfeita.

Com forte presença em entidades culturais e do setor audiovisual, já ocupou cargos em instituições como o Conselho Estadual de Cultura do RS e o Conselho Nacional de Políticas Culturais, consolidando uma atuação voltada à interface entre arquitetura, cultura e narrativa audiovisual.

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