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As casas através dos tempos

Do isolamento à integração: a evolução dos ambientes ao longo dos séculos

Clarice Mancuso

Arquiteta e Urbanista

Quando morei em São Paulo fiz alguns cursos de Pós Graduação na USP em um deles estudei esse tema.

Começaremos com o período de 1830-1880, tivemos aí o apogeu do café. A principal riqueza da época.​ As fazendas representavam a tipologia arquitetônica desse período. Tínhamos a casa grande cada dia mais ampliada e paralelamente a construção dos terreiros, tulhas e senzalas. Cozinhas mantinham-se separadas e banheiros, se assim podíamos chamar funcionavam de forma muito diversa do que o século seguinte iria ver.

Em visitas feitas durante o curso, acompanhadas do professor constatei tudo ao vivo. Um curso maravilhoso.

Após 1880 houve uma transição que passou do colonial rural para dito neoclássico rural. As  fachadas ficaram mais simétricas e as portas e janelas em alinhamento. Olhando para dentro, houve uma evolução nas cozinhas. Estavam no corpo da casa.

Até 1920 a influência europeia concretizou-se. Veio trazida por imigrantes que  substituíram a mão de obra escrava. Houve maior ornamentação na arquitetura e uma visível separação entre a casa das famílias e as áreas de produção. A planta da casa começou a separar área social, área íntima da área de serviço.

São Paulo como capital recebeu edifícios emblemáticos, financiados pela elite cafeeira.

De 1930 a 1950 após a crise do café de 1929, ocorreram grandes mudanças. Houve declínio das grandes fazendas iniciando a urbanização das áreas. Poderíamos dizer que foi o surgimento da arquitetura moderna.

As pessoas começaram a viver de forma contumaz em apartamentos. As peças eram amplas para lembrar as casas unifamiliares do campo. Eles traziam um só banheiro não importando o número de dormitórios. As cozinhas mantinham-se como ambiente separado e eram utilizadas essencialmente por serviçais que  possuiam seu dormitório junto a elas. Esse espaço era fora da área social ou íntima, dito espaço de serviço. Muitas vezes possuíam acessos separados. Duas portas no mesmo apartamento.

A partir de 1950 até meados dos anos 60 esse desenho manteve-se  estável.

Nos anos 70 efetivou-se o banheiro exclusivo para o casal e as cozinhas mantinham a configuração fechada e excludente. Quem cozinhava acabava não participando do âmbito social.

Até aqui tudo havia sido fruto de estudos, embora eu tenha vivenciado algumas dessas transformações.

Era chegado os anos 80 e com ele meu inicio profissional.

Vivi apartamentos com dormitórios menores e várias suites em um só imóvel. Surgiram os primeiros esboços da cozinha “ aberta” inspiradas nos EUA mas sem muita aderência para pessoas que tratavam a comida de forma diferente dos americanos.

Os lavabos foram integrados a área social.

Nos anos 90 com um certo tempo de formação vive aqui no sul as famosas sacadas ou varandas com churrasqueira. Eram entregues abertas, ou seja, em dias de chuva ou muito frio inviabilizava o uso. O trabalho dos arquitetos era fechar as mesmas com vidro, igualar o piso com o resto da área social. Durou um bom tempo, em torno dos anos 2000 até hoje  as construtoras já vendiam os apartamentos envidraçados e com a churrasqueira em plena sala social!

Lembro que conforme o cliente alguns pediam para transformá-la em lareira. Nesse período, definitivamente as cozinhas agregaram-se a área social. Algumas com ilhas onde o fogão e pia tornaram-se junto com coifas as queridinhas dos arquitetos.

Os dormitórios reduziram de dimensão e seus respectivos banheiros também.

Agora a área social é a maior área do apartamento.

Você que está acompanhando essa leitura e trabalha nessa área deve receber projetos de apartamentos das mais variadas datas de construção, para intervir. Muitos permitem devido a técnica construtiva, retirada de paredes e mudanças internas de configuração.

Boa sorte colega e muito trabalho é o que lhe desejo.

Aproveite, hoje ninguém pode sequer trocar um piso sem ART de arquiteto.

Mãos a obra!

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Galeria Bruno Schilling
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Clarice Mancuso

(CAU A48062)

Arquiteta e Urbanista formada pela UFRGSul ha 45 anos.
Pioneira em Design de Interiores como profissional.
Professora do Instituto de Pós Graduação IPOG,  palestrante e atualmente também mentora de arquitetos menos experientes.
Escreveu o primeiro livro teórico sobre arquitetura e decoração ( 1998 ) e muitos outros livros incluindo infantis e contos.

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