



Márcio Vargas (Mainheinn | Alemanha)
Márcio Vargas é designer de interiores e fundador da Casa +55, galeria privada na Alemanha dedicada à arte contemporânea brasileira. Em seus projetos, busca romper com o óbvio, propondo soluções criativas e novos usos para mobiliários e objetos existentes. Para Márcio, a casa é o reflexo de quem somos — e os objetos afetivos, verdadeiras joias que guardam memórias e sutilezas da vida.

Viver como local: minha experiência com o Home Exchange
Um mergulho na alma das casas ao redor do mundo.
Viajar sempre foi, para mim, mais do que deslocar-se de um ponto ao outro. É um mergulho no desconhecido, uma troca de olhares, culturas e estilos de vida. Foi assim que descobri o Home Exchange — um sistema de trocas de casas que redefine o conceito de viagem e transforma o lar em passaporte para o mundo.
Ao invés de hotéis ou estadias impessoais, no Home Exchange o que se compartilha é algo muito mais íntimo: o espaço onde alguém vive, sonha, cria e guarda memórias. Cada casa que já habitei pelo mundo me apresentou uma nova forma de pensar a vida e o morar. Entrei em contato com cozinhas carregadas de histórias, bibliotecas particulares que revelam universos pessoais, obras de arte que contam segredos familiares. Foi como visitar pequenas galerias da vida cotidiana, onde cada detalhe fala da identidade de quem ali habita.
Essa experiência me transformou como designer de interiores e curador. Cada ambiente vivido fora do meu país ampliou meu olhar para a diversidade estética e cultural. Casas em Lisboa, Paris ou Sevilha me ensinaram que o morar não se resume a tendências, mas é um reflexo direto da alma de seus habitantes. Em contrapartida, ao abrir minha própria casa na Alemanha, pude compartilhar a brasilidade traduzida em móveis autorais, artesanato, obras de artistas contemporâneos e na hospitalidade calorosa que nos define.
Para arquitetos e decoradores, o Home Exchange é um campo fértil de pesquisa e inspiração. É experimentar in loco aquilo que os livros e revistas não conseguem traduzir por completo: a verdade do habitar. Vivenciar casas reais, com sua mistura de estilos, improvisos e memórias, é entender de forma sensível como o design se entrelaça com a vida.
Descobri que morar, em qualquer lugar do mundo, é sobre pertencer. Não importa se a casa é minimalista, clássica ou boêmia. O que realmente a torna especial é a sua capacidade de acolher, de traduzir a essência de quem vive nela. Essa é a lição mais profunda que o Home Exchange me ofereceu: viver como local é também aprender a olhar com respeito e curiosidade para o outro, e reconhecer que cada casa é uma obra em construção, cheia de identidade, história e alma.
No fim, cada troca foi mais do que uma viagem. Foi uma aula viva de arquitetura, design e cultura humana.





