


"Além da Janela" e os planos diretores
Em pauta os limites entre desenvolvimento e proteção ambiental na cidade.
Ane Kieling
Arquiteta e Urbanista
O tema original deste artigo era o documentário sobre a conquista do Parque Luiz Henrique Roessler. Ao final segue o link do documentário sob direção de Gênesis Araújo que aprofunda a história e mostra a força da conquista.
No entanto, surgiu uma urgência: o novo Plano Diretor de Novo Hamburgo.
Assim como vejo os protagonistas do documentário além da janela do tempo, percebo que hoje vivemos um período em que muitos não conseguem olhar além de seus próprios interesses, celulares e jogos de poder.
Atribuições e a complexidade
A primeira questão é técnica: por lei, a elaboração de um plano diretor é atribuição de arquitetos urbanistas. Ponto!
Mas. pensar o futuro de uma cidade é uma tarefa complexa, que exige escuta ativa da comunidade e uma equipe transdisciplinar. A coordenação deve ser de um arquiteto, sim, mas o grupo precisa incluir especialistas em: gestão de trânsito, gestão ambiental, gestão urbana, biologia, economia, hidráulica e drenagem urbana, advocacia, história, engenharias.
Esses profissionais devem ter visão ampla, capacidade de diálogo e habilidade para construir consensos. Um plano diretor urbano não é uma obra de ficção: ele molda a realidade.
A cidade como reflexo das escolhas
A cidade que temos hoje é resultado de boas e más decisões do passado. Em Novo Hamburgo onde nasci, cresci e participei de muitas conquistas é essencial respeitar a cultura local. E aqui me refiro à cultura participativa.
Eu vivi isso. Vi a comunidade se unir para reivindicar melhorias e conquistar mudanças. Lembro de um livro que li no ensino médio, onde o autor relatava que, nos anos 60, donas de casa pediam o reflorestamento da cidade porque a lenha estava cara, as matas haviam desaparecido.
No final dos anos 70 e início dos 80, surgiram os primeiros grupos preocupados com alimentação natural e ecologia. Sob sua influência, muitas praças foram arborizadas e preservadas. Alguns moradores chegavam a regar as mudas com baldes tamanha era a consciência comunitária.
O mesmo aconteceu em Hamburgo Velho, nosso núcleo histórico, onde sempre lembramos do artista Ernesto Frederico Scheffel. Mas, ele não estava sozinho. Muitas pessoas sonharam com ele. Se ainda temos casarões preservados, é graças àqueles que, voluntariamente, ajudaram a manter as primeiras fachadas.
Foi com união que conquistamos iniciativas maiores, como o ComitêSinos e o barco-escola Martim Pescador, que durante anos navegou o Rio dos Sinos ensinando sobre educação ambiental e revelando as fontes da poluição.
Reflexões urgentes
Mas e agora? O quanto regredimos? O que melhoramos? O que ainda podemos destruir ao permitir que interesses particulares se sobreponham ao bem comum?
É chocante que, mesmo após as tragédias de maio de 2024 aqui no Rio Grande do Sul, ainda haja quem não compreenda que tudo está interligado.
Propor grandes aterros em áreas de várzea que são, por natureza, reservatórios naturais de água não é inteligente, tampouco sensato.
Mas como esperar outra postura de quem ainda acredita que a riqueza vem exclusivamente da indústria? De quem diz que faltam empregos, quando na verdade faltam pessoas dispostas (ou qualificadas) para os empregos que existem?
Os jovens de hoje não querem a manufatura. E o sistema educacional, infelizmente, não tem oferecido a formação necessária para um mundo cada vez mais tecnológico. Estima-se que, em breve, faltarão mais de 150 mil engenheiros no Brasil. E, ainda assim, as universidades não conseguem sequer fechar turmas.
Aos gestores que acreditam que gerir uma cidade é impor sua vontade, fica um alerta: pense em seus eleitores. Os interesseiros de plantão negociarão com qualquer candidato, porém aqueles que forem negligenciados, aqueles que simplesmente querem algo melhor para a maioria, esses serão uma força opositora maior que qualquer candidato.
Assista ao documentário "Além da Janela", neste link.

Ane Kieling
(CAU A122084)
Ane Kieling é arquiteta de Novo Hamburgo (RS) com mais de 20 anos de experiência, criando espaços que combinam beleza, função e bem-estar. Ao longo da carreira, percebeu que seu olhar poderia ir além da arquitetura: a partir de uma experiência pessoal de saúde, passou a se aprofundar em terapias complementares, como Reiki, astrologia e numerologia. Hoje, Ane une sua experiência profissional à busca pelo despertar da “inteligência espiritual”, ajudando pessoas a encontrar equilíbrio e harmonia em suas vidas e ambientes.

