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Morar com o tempo:

Como lidar com pressão, objeções e decisões para vender projetos sem perder clareza

Maria Eduarda Kopper

Arquiteta e Urbanista

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O lugar onde moramos deveria ter a capacidade de evoluir conosco. Mas, na maior parte dos imóveis projetados hoje no Brasil, isso simplesmente não acontece.


Basta olhar ao redor: casas e apartamentos pensados para uma fase específica da vida, que se tornam hostis diante de qualquer mudança. Um joelho operado. Uma gravidez. Mais alguém que precisa vir morar junto. Um idoso que passa a precisar de apoio. E então, tudo aquilo que chamávamos de “lar” se mostra inflexível, excludente, inadequado.


Partindo dessa consciência, a pergunta que me move, como arquiteta e pesquisadora, é simples: Por que continuamos projetando imóveis com prazo de validade? A vida não é linear — nossos espaços também não deveriam ser.


Falar sobre imóveis adaptáveis e flexíveis não é só uma pauta técnica. É, sobretudo, um exercício de olhar com mais humanidade para a arquitetura. Quem nunca passou por uma grande virada na vida? Mudanças profissionais, rupturas familiares, filhos que crescem (ou vão embora), diagnósticos inesperados. Tudo isso impacta diretamente na forma como habitamos.

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"Projetos repetitivos, plantas engessadas, prioridades que olham para o curto prazo de venda — e não para o ciclo de vida do morador."

O problema é que o mercado imobiliário brasileiro, em sua lógica massificada, ainda responde a esse movimento com uma rigidez estrutural difícil de sustentar no médio e longo prazo. Projetos repetitivos, plantas engessadas, prioridades que olham para o curto prazo de venda — e não para o ciclo de vida do morador. Enquanto isso, o país envelhece rápido e envelhecer em casa é desejo — mas ainda é realidade para poucos.


No Brasil, já somos mais de 30 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Esse número deve dobrar nas próximas duas décadas. E não se trata apenas de estatística demográfica: trata-se de comportamento, desejo e urgência. Cada vez mais, ouvimos com frequência frases como: “Quero um lugar para envelhecer com conforto.” Ou: “Quero que esse seja meu último imóvel.” E:“Quero ficar onde criei raízes.”


Esse desejo de permanência, de continuidade, é o coração do que chamamos de Aging in Place — conceito que defende que as pessoas devem ter condições de continuar vivendo em suas próprias casas à medida que envelhecem, com autonomia, segurança e dignidade.


No entanto, o que encontramos, na prática, são imóveis que não acolhem esse processo. Basta uma pequena dependência física para que o lar se transforme em um campo de obstáculos: portas estreitas, banheiros mal posicionados, pisos escorregadios, falta de apoio para as tarefas básicas. Pensada dessa forma, a arquitetura que não é flexível, complica a vida e exclui a possibilidade de adaptação.


Infelizmente no Brasil, essa exclusão silenciosa causada pelo ambiente construído tem sido a norma. Na ADK Arquitetura, temos apostado numa abordagem que busca integrar estética, desempenho e empatia. Projetar pensando no Aging in Place não significa criar espaços estéreis ou com cara de hospital. Pelo contrário: significa projetar com sensibilidade e inteligência.


• Plantas que permitam reconfigurações simples ao longo do tempo (um quarto que vira escritório, que vira apoio para cuidador);


• Infraestrutura planejada para receber automatizações futuras sem quebra-quebra;


• Iluminação natural e artificial pensada para acompanhar os ritmos do corpo;


• Detalhes invisíveis hoje, mas essenciais amanhã: uma porta que já nasce mais larga, um box com vãos generosos, tomadas a meia altura, superfícies que não escorregam, layouts que preveem manobras com auxílio técnico.


Flexibilidade é pensar em tudo isso pode acontecer sem comprometer beleza, conforto ou linguagem contemporânea.

"É justamente aí que vejo uma grande oportunidade para incorporadoras de pequeno e médio porte: sair da corrida do metro quadrado e entregar produtos com alma, que respondem a transformações reais da vida cotidiana."

O mercado imobiliário ainda está atrasado — mas não precisa continuar assim. Com frequência, converso com incorporadoras e investidores. E o argumento que escuto é recorrente: “Mas o público ainda não pede isso.” Será mesmo? Ou será que o público simplesmente não sabe que isso é possível, porque nunca lhe foi oferecido?


Na nossa opinião, o comportamento do consumidor está mudando. As pessoas estão mais conscientes, mais exigentes, mais atentas ao que traz bem-estar real — e não só metros quadrados. Estão dispostas a pagar mais por imóveis que tragam qualidade de vida, longevidade e inteligência construtiva.


É justamente aí que vejo uma grande oportunidade para incorporadoras de pequeno e médio porte: sair da corrida do metro quadrado e entregar produtos com alma, que respondem a transformações reais da vida cotidiana. Produtos que não envelhecem mal, que não se tornam obsoletos, que não expulsam seus moradores quando eles mais precisam de estabilidade. Produzir imóveis que envelhecem bem junto com quem vive neles.


Projetar para o Aging in Place é, para mim, uma forma de honrar o tempo. É reconhecer que a arquitetura precisa servir à vida em todas as suas fases — não apenas à juventude. É pensar em espaços que acolham uma criança engatinhando e, mais tarde, o caminhar delicado de um idoso no mesmo corredor. Que abriguem risadas em família hoje, e amanhã o silêncio de alguém que escolhe viver só, com autonomia. É aceitar que a passagem do tempo não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser abraçada.


Quando conseguimos fazer isso com beleza, sensibilidade e visão técnica, criamos imóveis que têm valor duradouro. Valor de uso, valor emocional, valor de mercado.


Na arquitetura, passamos tempo demais projetando para o olhar do outro — para a vitrine, para o render, para o post. Está na hora de voltarmos a projetar para a vida. Para os corpos que mudam. Para as rotinas que se transformam. Para a dignidade que deve permanecer. Afinal, pensar em imóveis flexíveis e adaptáveis não é uma tendência passageira. É uma resposta madura e responsável a um novo tempo que já começou.


E essa, para mim, é a arquitetura que vale a pena.

Maria Eduarda Alvares Kopper

(CAU 32272-5)

Arquiteta, Mestre em Teoria, História e Crítica da Arquitetura (UFRGS); especialista em Sustentabilidade, Saúde e Conforto no Ambiente Construído; especialista em Neuroarquitetura; membro Green Associate no Green Building Council (GBC); Well Mind Advisor (WELL Building Institute). Sócia-diretora na ADK Arquitetura, escritório de projetos arquitetônicos.

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